Paulo Ghiraldelli Jr. (sempre ele!!!) fez um diagnóstico arrasador do ensino brasileiro em artigo publicado hoje no Jornal da Ciência.
Concordo com as críticas feitas pelo Paulo Ghiraldelli Jr. A começar pelo fato de que os professores do ensino superior não tem vontade sequer de se aproximar dos colegas dos níveis de ensino fundamental e médio. Mas isso somente evidencia o divórcio consumado entre a universidade e o sistema de ensino. As faculdades ainda têm uma distância um pouco menor em relação às escolas públicas e particulares, mas nada que nos faça olhar o futuro com otimismo.
O diagnóstico de Paulo Ghiraldelli Jr. sobre as razões desse distanciamento são boas. Cito-as:
Esse tipo de sentimento, em nosso país, está acoplado claramente ao desprestígio social que advém do achatamento salarial de professores ao longo de décadas, algo que começou nos anos 60 e que nunca mais parou.
Junto disso veio a formação cada vez mais precária desses professores e, então, sem salário e sem saber, ele passou a ser um cidadão de segunda categoria. Tem diploma superior, mas como ensina crianças, é visto como quem “ensina coisas menores” e, por isso mesmo, aparece socialmente como quem deve de fato receber um salário menor que qualquer outro profissional com o mesmo tempo de estudo que ele.
Mas aqui eu gostaria de fazer um acréscimo: por que a qualidade decaiu? É necessário notarmos que as reformas de ensino, desde o acordo MEC-USAID, produziram um formato no sistema educacional cuja lógica pode ser descrita da seguinte maneira: mais e maiores escolas para mais alunos, com um ensino nivelado por baixo para grandes contingentes populacionais. Educação com maior nível de complexidade deve ser ministrada e ofertada, gratuitamente, para pequenos contingentes de pessoas, que serão preparadas para manter o progresso do país. E, via de regra, os mais ricos vão para as universidades públicas, e os mais pobres ajeitam-se em um mercado para pessoas não muito especializadas.
Essa é a lógica, grosso modo, que comanda o sistema de ensino brasileiro desde os anos 1970. Sublinhe-se que essa lógica é perversa: à medida que as demandas por profissionais cada vez mais bem preparados, capazes de executar tarefas cada vez difíceis do ponto de vista técnico e conceitual aumenta, mais o sistema escolar fundamental e médio é abandonado à própria sorte, ou apenas mantido em um nível muito abaixo do medíocre. É como se as escolas de níveis fundamental e médio, a medida em que não mais pudessem atender a clientela de alta renda, perdessem sua função principal, até mesmo a sua razão de ser. O ensino de qualidade desloca-se, cada vez mais, para a universidade, que se torna o espaço principal de formação das pessoas de alta renda. Qualquer um que passou pela universidade púbica sabe disso. E qualquer um que veio de uma classe média baixa – o que é exceção e não regra – sabe isso ainda melhor.
(Observação: quando Claude Leví-Strauss, em Tristes Trópicos, recordava da formação da Universidade de São Paulo, ele observou que aquela classe dominante paulista estava fabricando o seu próprio veneno, visto que o ensino universitário iria trazer uma série de conhecimentos que minaria o poder daqueles que a construíam. Se ele sugeria que isso significava a criação de oportunidades para o surgimento de uma elite intelectual mais diversificada, proveniente de várias camadas sociais, menos homogênea e monolítica, é forçoso dizer que Lévi-Strauss se enganou: a própria universidade se transformou em um lugar cada vez mais distante da sociedade. Ela é muito mais uma “ilha” do que parte de um sistema.)
De resto, ponto para o Paulo Ghiraldelli Jr. também no tocante às propostas. Qualquer um que entente de ensino no Brasil (menos o Diogo Ioschipe) sabe que a manutenção de uma salário razoável está condicioda à sujeição dos profissionais à uma jornada de trabalho em no mínimo duas instituições de ensino, ou a uma carga horária que não raro ultrapassa 50 horas em sala de aula (no Pará é dificílimo um colega conseguir fazer uma pós-graduação stricto sensu por conta da excessiva carga horária. É comum o sistema público de ensino perder bons profissionais que optam por concluir o mestrado, desistindo da carreira no magistério público. Isso, apesar do discurso oficial do estado há anos insistir na qualificação profissional.
Palmas também para a crítica corajosa ao piso mínimo, que só funciona de fato mesmo na cabeça das direções sindicais, e ao cinismo com que a grande imprensa e o estado vem tratando a questão da segurança dos professores, principalmente nas escolas públicas.
Ghiraldelli, claro, fala bastante do ensino público, e seus diagnósticos são bastante acertados. Acrescento, no entanto, que as escolas privadas merecem uma análise à parte, pois o tipo de perversão que se criou ali é de uma outra natureza. Trata-se da polarização entre o aluno cliente e o professor prestador de serviço. Do ponto de vista formal, é possível “encaixar” a docência como uma prestação de serviço. No entanto, e apesar de toda a pregação da revista Veja e do grupo Abril em torno da melhoria da qualidade do serviço, o que se instaurou foi uma situação na qual o cliente sempre tem razão: ele deve passar de ano, não pode ser corrigido (qualquer correção por parte do professor logo é identificada como perseguição…), e se o professor não “agradar a turma” – ser legal, ser palhaço, animador de auditório etc, (e aí tome a ideologia da qual os neo-liberais tanto reclamam porque à esquerda e à direita ideologia é a única coisa que platéias entendem!!!) – está demitido porque “não agradou a turma”. Qualquer um que vive da docência sabe disso – menos o Diogo Ioschipe, que não é deste planeta.
Como historiador, sou fiel à idéia de que as datas não devem ser comemoradas, mas servir como um momento para lembrarmos e pensarmos sobre o tema do dia. Para todos os meus colegas, uma boa anti-comemoração do dia dos professores para todos!
O que veio primeiro: a crise na formação ou no ensino? O ovo ou a galinha? Adão ou o Homo erectus?
Parabéns, professor! Pela coragem de assumir esse título!