Reportagem interessantíssima do New York Times de hoje, sobre as mudanças de “tom” nas negociações entre as tropas norte-americanas e o partido xiita no Iraque:
Em síntese, Barack Obama tem uma situação difícil pela frente, uma vez que o governo iraquiano é majoritariamente xiita. Isso significa que quaisquer movimentos que os Estados Unidos façam no Iraque repercutem, necessariamente, no explosivo vizinho, o Irã.
Até agora os principais políticos xiitas do Iraque têm sofrido uma enorme pressão dos xiitas iranianos, que crêem que um acordo entre Iraque e Estados Unidos possa trazer uma presença permanente de tropas ianques na região – algo que o Irã, obviamente, não quer. No entanto, a eleição de Barack Obama abre uma possibilidade nova, na medida em que, com os Republicanos se retirando das negociações, a pressão sentida pelos políticos iraquianos se alivie, criando condições novas para um entendimento no qual as tropas americanas ficarão, mas respeitando a soberania do Iraque, e sem condições de atacarem outros países, a partir do solo iraquiano.
A reportagem aponta, sobretudo, para uma mudança de “tom” nas negociações, agora muito mais otimista. Os governantes iraquianos ganharão, ao que parece, maior atenção em suas reivindicações para a manutenção de tropas americanas, em concordância também com os países vizinhos ao Iraque, notadamente Irã e Arábia Saudita e Síria. A conferir como estas negociações andarão.
Agora, a notícia mais interessante do texto está no fato de que a administração de Obama mudará seu foco de ação do Iraque para o Afeganistão. Ou seja: Obama vai fazer, espera-se o que deveria ter sido feito desde o começo: caçar aquela besta-fera do Bin Laden, desmontar a Al Qaeda, forçar combate contra os Talebãs, destroçar o tráfico de drogas de papoula e heroína, ao invés de manter duas frentes de batalha, uma no Afeganistão e outra no inferno que virou o Iraque.
De qualquer forma, um dos grandes desafios que Obama terá que enfrentar é o anti-americanismo legado por Bush. Isso foi péssimo: os motivos para a guerra contra o terrorismo internacional e contra a Al Quaeda, em particular, são plenamente justificáveis. No entanto, Bush conseguiu a proeza de descontentar aliados europeus, mobilizar a opinião pública do mundo inteiro contra si (mesmo quando estava certo) e fazer os EUA se transformarem nos vilões da globalização. Mudar a imagem internacional dos EUA, de golpista no interior dos G8 (ou usurpador no interior do Império, como falaram uma vez Hardt e Negri) para uma força política capaz de promover uma integração mais pacífica da economia mundial será uma enorme tarefa. Se conseguir, Barack Obama terá dado um passo significativo para afirmar a hegemonia americana no mundo, bem como para interferir em áreas perigosas para os EUA e o ocidente, em especial no Oriente Médio e com os grupos terroristas.