Revolução Permanente (?) (!)

Um outro destaque de hoje do New York Times é excelente o artigo de Orlando Patterson, professor de sociologia da Universidade Harvard e autor de The Ordeal of Integration. Para ele, a vitória de Obama não deve ser vista como algo inusitado, ou uma novidade política; isto lançaria “expectativas irreais” sobre sua presidência. Ao contrário, a eleição de Barack Obama deve ser remetida ao passado e à história americanas, mais propriamente… à Revolução Americana!

Em outras palavras, a vitória de Obama nada mais é do que a própria continuidade da Revolução Americana, mas agora ocorrida de outra forma: ela incorporaria os grupos que foram excluídos da revolução americana em sua fase inicial – os negros, as mulheres e os jovens. Patterson chama a atenção de que a vitória de Obama é conseqüência do longo processo de incorporação dos negros na vida pública americana, observável na mudança dos brancos em relação tanto às manifestações culturais associadas aos negros – como a aceitação maciça da black music e o hip hop em especial, ou as “personalidades” como Michael Jordan, mudanças culturais que estão ligadas ao fato de que negros como Colin Powell ou Condolezza Rice pudessem ser cotados para a presidência.

Patterson igualmente chama a atenção para o fato de que as mulheres compareceram em maior número que os homens nestas eleições, dando vantagem eleitoral à Barack Obama. Em outras palavras, o presidente eleito venceu bem entre o eleitorado feminino, e este foi às urnas em número maior que o masculino. Por fim, entre os jovens, Barack Obama ganhou na proporção de 2 para 1, fator decisivo para sua vitória.

Daí Patterson concluir que a eleição de Obama não é unicamente um exemplo de quebras de barreiras raciais. O que os EUA fizeram, nesta eleição, foi a correção de uma tendência à exclusão de grupos sociais que estavam fora das conquistas liberais da revolução americana. Ou seja: uma nova partida da revolução americana, que agora constrói uma democracia cada vez mais inclusiva – para Patterson, a maior conquista política em 25 séculos. (!!!!)

Se Patterson estiver certo – e descontado do fervor cívico, bastante compreensível neste momento – a tradição política americana não é a do liberalismo elitista, que institui a liberdade de forma lenta, gradual e desigual a partir dos “traditional white men”, mas a da continuidade da revolução liberal até a realização da igualdade completa de direitos e da participação política plena e cidadã de todos. A indissociabilidade da liberdade e da igualdade, portanto. Leitura da história que, particularmente, muito me agrada, por não opor liberdade à igualdade – coisa que os neo-cons de todo o mundo, se esforçam intensamente por separar.

Aliás, estou pensando seriamente em mandar este artigo do Times de presente para o Reinaldo Azevedo…

Publicado em:  on 7 07UTC Novembro 07UTC 2008 at 3:56 pm Deixe um comentário
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