Mas o principal, penso, foi um diagnóstico muito interessante sobre a mudança que o PT sofreu com a queda da URSS. Cito o trecho:
A verdade é que a queda do Muro de Berlim fez muito mal ao PT. O fracasso da União Soviética e de seus satélites no Leste Europeu tirou de cena o foco da crítica petista, que em sua origem repudiava o chamado socialismo real. A partir daí, o partido tomou um rumo regressivo e foi dominado por três grupos. O primeiro é a corrente de origem castrista, representada, entre outros, por José Dirceu. O segundo é o dos sindicalistas, notadamente os que controlam a CUT. O terceiro é formado pelas correntes católicas ligadas à Teologia da Libertação, cujo principal representante é Frei Betto, que foi um alto assessor de Lula. Com isso, o PT adotou uma ideologia retrógrada do estado como salvador da sociedade. Deixou de fazer qualquer crítica ao socialismo real a não ser em dias de festa, em documentos para inglês ver e passou a falar como um velho partido comunista de outros tempos. O PT se tornou uma agremiação de esquerda estatizante, para a qual a história é uma ferrovia cujo destino final é a redenção da humanidade e que vê a si própria como a locomotiva do comboio. Esse é o conceito de história que deveria ter desaparecido depois de 1989, com a queda do Muro de Berlim. Ao encampá-lo, o PT se tornou uma espécie de relíquia.
Demétrio Magnoli está certo, ainda que este não seja todo o problema. De fato, quando esse universo extremamente autoritário e totalitário ruiu de podre, o PT, ao invés de condená-lo e comemorar essas mudanças como uma libertação, parece que perdeu um pouco de sua identidade e resolveu resgatar toda essa velharia política, como uma espécie de guardião da tradição. Tomou para si o papel de articulador continental das esquerdas, quando simplesmente deveria ter forçado Cuba a se tornar uma social democracia, apoiado a sociedade civil a se tornar cada vez mais independente do estado e dos partidos, lutar pelas liberdades individuais e constitucionais.
Ora, simplesmente não entendo por que o fim do muro e o fim da URSS foram recebidos não com festa, mas com luto. A esquerda deveria estar feliz com toda a destruição dessa parafernália autoritária e totalitária, e deveria retomar investir suas forças em retomar a sua tradição liberal (o socialismo fabiano, o Labour, o internacionalismo operário) e libertária de esquerda (Orwell über alles!), não reciclar a Terceira Internacional
O resultado? O que deveria ter sido uma benção para as esquerdas de origem pós-1968, com certa influência da Filosofia da Diferença, e aberta ao diálogo democrático, foi perdido. Lembro que ninguém menos que Félix Guattari entrevistou Lula, ainda no começo do PT, e o partido, junto com o Solidariedade, durante muito tempo foi apontado como fenômeno de reinvenção da esquerda, capaz de romper com o Stalinismo, o Socialismo Real, etc. Era a esquerda que lia George Orwell, era dela que partia a crítica mais conseqüente ao comunismo estatista. (Lembremos que a direita era toda oriunda do regime militar).
Foi no interior de uma esquerda universitária, do final dos anos 1970 até os anos 1990, que o anarquismo e o libertarismo foram recuperados, algo que ajudou a destroçar a versão comunista da história do operariado brasileiro Aqui devemos lembrar da importância de toda uma minha geração de professores e intelectuais que nos educaram, e que jamais poderiam ser citados como “stalinistas” – ou alguém acha que o Otávio Ianni, o Alcir Lenharo e o Paulo Sérgio Pinheiro eram “marxistas ortodoxos”?
Por fim, foi o PT, nos anos 1980, que encampou a luta pelos direitos das minorias, retomou o debate contra o racismo não declarado existente no Brasil e abriu espaço para agrupar vozes que denunciavam o preconceito contra os homossexuais em pleno período do terror da AIDS.
Tudo isso, neste momento, parece estar coberto por uma camada de poeira, que não para de ficar cada vez mais espessa.
Penso que é o momento para que a esquerda faça uma revolução em si mesma, que retome sua história de ruptura com a tradição autoritária e se refaça, apelando para seu patrimônio libertário, e não leninista, retomando seu lugar de direito na história, usurpada recentemente pelos neocons.
Agora, é preciso fazer um pequeno reparo no que Demétrio Magnoli disse, ou melhor, no que ele não disse. O quanto dos problemas que o PT e as esquerdas enfrentam hoje não são oriundo do fato do partido ter encampado outra tradição, a do populismo político brasileiro, do paternalismo e do clientelismo? Parece incrível, mas podemos buscar a crítica ao patrimonialismo político brasileiro feito pelo Sérgio Buarque, pelo Raimundo Faoro, e toda uma literatura de crítica ao populismo, e voltá-la contra a esquerda atual. Essa é a sua verdadeira “traição”: ter adotado aquilo que ela tanto criticou. Penso, mesmo, que muito do imaginário dos políticos petistas precisa mudar: parte da agenda da esquerda parece que parou em 1964, na época das reformas de base de João Goulart. Precisamos de reformas, claro, mas não mais destas.
Por fim, chamo a atenção para a habilidade de Magnoli em conduzir a entrevista: manteve-se no controle o tempo todo. Fez sua crítica à esquerda e ao PT, falou o que tinha de falar sobre a democracia sem cair na armadilha da revista, que faz tudo o que pode e o que não pode para criticar não o governo, mas a esquerda em si. Intelectual é isso aí: mantém seu ponto de vista, não perde o controle do raciocínio, dialoga com as perguntas e apresenta sua resposta, sempre bem fundamentada, sem fugir do que foi perguntado, concordando ou não com o entrevistador.