Essa proposta – excelente ao meu ver – foi apresentada por Ademir de Oliveira, secretário de Ciência e Tecnologia do estado do Amazonas, durante o encontro regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Oriximiná, no oeste paraense.
A reportagem é do Jornal da Ciência.
Comento o seguinte: existe uma compreensão errônea de que a Amazônia ainda é um vazio demográfico, e tecnológico. Claro, a região precisa ainda de muito investimento em formação científica, mas é um erro sério de avaliação acreditar que ela é despovoada – o que siginifica excluir 10.000 anos de ocupação humana na Amazônia -, ou que ela não participa do processo de globalização da informação, do capital e da tecnologia.
Mudando o foco de atenção para as cidadaes amazônicas, seus problemas, seu desenvolvimento e sua história, corrige-se a compreensão que temos da região, integrando tanto seus aspectos bio-ecológicos quanto sociais e humanos.
Aliás, sugiro a todos os leitores desse blog que, quando puderem, dirijam-se a algum estado da Amazônia e conehçam in loco o lugar, não apenas pela televisão. Andem de barco, desçam nos povoados ribeirinhos, entendam a complexidade da região. Somente vindo aqui – além de lendo muito, é claro – os visitantes, principalmente do sul do Brasil entenderão que os problemas da região não se resumem somente ao desmatamento. Aliás, o próprio desmatamento não é causa, é conseqüência da falta de um modelo de crescimento econômico nacional alternativo àquele implantado pela ditadura militar, desde os anos 1970.
Além da miopia, o ângulo não favorece!
É mais fácil inverter o processo que assumir a culpa. Boa parte do desmatamento e da política desenvolvimentista pós 1970 favoreceu economicamente o eixo econômico centro-sul-sudeste.
E a Amazônia é grande, amigo! Dá pra jogar muita poeira pra debaixo das estivas…
Além da miopia, o ângulo não favorece!
É mais fácil inverter o processo que assumir a culpa. Boa parte do desmatamento e da política desenvolvimentista pós 1970 favoreceu economicamente o eixo centro-sul-sudeste.
E a Amazônia é grande, amigo! Dá pra jogar muita poeira pra debaixo das estivas…
Cláudia, não sei bem se você está fazendo uma crítica. Aproveitei o artigo do Jornal da Ciência para chamar a atenção para a seguinte situação:
a) Obviamente, desmatamento é um desastre! Mas as questões precisam ser bem claras: o que causa este desmatamento? o que vem acompanhando o rastro de destruição da floresta? Mesmo que o desmatamento fosse completamente suspenso, o principal não estaria resolvido: o modelo(????) de produção das cidades na Amazônia não foge às regras de qualquer grande cidade do centro sul: desrespeito ao plano diretor da cidade (quando há um), especulação imobiliária, ineficiência do equipamento urbano. Mas aqui há um outro agravante: a amplitude dos problemas como poluição dos rios e córregos piora se pensarmos as relações entre a cidade, a vida nas ilhas, o gigantismo da variedade de espécies animais e vegetais existentes na Amazônia, e cujo impacto nós podemos ver diariamente. Então não penso que o foco seja cidade x natureza, desmatamento x conservação. A lógica que nos orienta deve ser outra, conectiva e não adversativa: cidade E natureza, economia E conservação.
b) Você e eu viemos do sul. Quanto mais conheço a Amazônia (e ainda falta muito) mais me convenço de que o modelo de desenvolvimento para o país deveria ser repensado a partir do que se vier a inventar como alternativa econômica na região norte. Explico: gostaria que, daqui para frente, a economia paulista, por exemplo, levasse em conta a existência da mata atlântica, e produzisse formas de continuar com as atividades econômicas comerciais e industriais sem precisar destruir o que resta deste eco-sistema, e mesmo recuperando esse eco-sistema ao longo de todo o estado. Por que o desenvolvimento econômico brasileiro não consegue quebrar com esse paradigma de capitalismo século XIX, agressivo e predatório? Não precisa, nem deve ser assim.
c) Defendo reformas sérias no capitalismo brasileiro sim. Por exemplo: quando uma empresa, de qualquer lugar vem aqui ao Ver-o Peso, ou a um tribo, aprender com as pessoas a composição de um remédio, ou colher flores ou plantas para um perfume, essa empresa deve fazer “ações compensatórias”, como desenvolver um programa assistencial ou educacional, ou pagar royalties para essas comunidades de artesãos, índios ou cidades para terem direito a usar um conhecimento de autoria coletiva dessas tradições e comunidades? Eu acho que devem pagar royalties. Mas índios e caboclos ganhando dinheiro com seus conhecimentos e experiência, administrando seu próprio patrimônio, com todas as regulações legais, é algo que ainda desperta horror à esquerda e à direita no Brasil. Aliás é incrível como este país não consegue sair dos mitos de séculos passados: de Gandavo à “Iracema”, nunca são vistos por nenhum governo como sujeitos de sua história.
d) Que “Vontade de Cerrado” é essa que se apossou do Brasil desde o governo Kubstchek? Só vamos nos dar por satisfeitos quando este país for um imenso Goiás?
Mas é isso mesmo, Renato!
Nós, na Amazônia, ainda não temos o modelo a exportar (quem dera), e continuamos autofagicamente a assumir o modelo daquele pais que chamam Brasil, com capital na Avenida Paulista e modelo social do Vidigal! Lamentavelmente.
Tive com um ex-carioca, atual paulistano, passeando por Belém há pouco tempo atrás, e reconheci no olhar dele o preconceito por todo o complexo cultural que vivemos. E só como exemplo: não é a primeira vez, nem a mesma pessoa.
Temos muito o que aprender com o caboclo da beira do rio (que também sonha e deseja), que conhece essa terra mais que qualquer pesquisador do Goeldi, da UFRA, UFPA… E o que o caboclo tem em paga? Concordo contigo: o conhecimento se multiplica além das fronteiras, mas os recursos são limitados e, um dia (ainda não começou, acredito), retornarão como gafanhotos! Modelo econômico, sim precisa ser revisto, mas de forma profunda. Também o modelo econômico é conseqüência de uma mentalidade que, esta sim, tem que ser revista. Nossa mentalidade ainda é de riqueza infinda. Ainda não caiu a ficha! Um dia o Saara foi floresta…