Michel Foucault: libertário demais para ser de direita, conservador demais para ser de esquerda? (I)

Embora este não seja um blog pós-estruturalista o nome de Michel Foucault aqui é bem vindo. Em alguns blogs a palvra “Foucault” é suficiente para causar anátemas, e mesmo blogs muito bons simplesmente proíbem qualquer menção ao nome do filósofo, como uma espécie de declaração de princípios (os quais não compreendo) ou talvez, como protesto contra algo que, para mim, não está claro.

Por que isso me incomoda? Em primeiro lugar porque eu sou um leitor de Michel Foucault.  Segundo, porque nunca me senti completamente à vontade com a vinculação entre Foucault <=> pós-modernismo <=> inconseqüência <=>  porraloquice  <=> conservadorismo político.

Michel Foucault (1926-1984)

Michel Foucault (1926-1984)

Para quem achou estranho o termo “conservadorismo político” acima, achando que leu errado, ou que eu me enganei, aviso: não me enganei, não.

Quando eu estava na graduação em história, ainda na primeira metade da década de 1990, a simples menção ao nome de Foucault era suficiente para que os marxistas ortodoxos de plantão ficassem furiosos. Não vou citar nomes dos meus professores da UNICAMP, até porque tenho lembranças muito felizes deles, mas me lembro de um professor de filosofia se referir à totalidade do pensamento de Foucault como sendo um “micro-pensamento”. Alguns outros professores, na Faculdade de Educação, até achavam interessante ler Foucault mas consideravam Vigiar e Punir um livro muito “paranóico”. Muitos preferiam Gramsci.

Mas essas eram críticas muito leves: a quantidade de comentários diretos e indiretos que ouvi a respeito de que a leitura de Foucault era coisa de GLS, per(in)vertidos sexuais, bichas enrustidas ou assumidas (mas sempre “alienadas”); de que todo essa papo de minorias, de lutas setoriais, de análise da politização do corpo, de lutas contra as discriminações em qualquer tipo de sistema econômico fossem, no fim das contas, uma espécie de atitude contra-revolucionária, já que elas constituíam uma atitude muito mais libertária, mesmo anarquista, que não se sujeitava à disciplina partidária (o PC do B, particularmente, achava Foucault o máximo do individualismo burguês, um conservador disfarçado de esquerdista). E para terminar: muita gente da esquerda do PT, o PC do B, o PSTU, PCO não podiam ouvir falar em livros como Microfísica do Poder, em especial o capítulo sobre a verdade e os intelectuais, pois não suportavam as críticas de Foucault contra o  regime de partido único, do partido como centro da consciência revolucionária e histórica da classe operária, e principalmente a um dos conceitos mais caros à esquerda, o de Ideologia, que era jogado na lama no livro supra-citado.

Hoje o que eu percebo é uma verdadeira hojeriza ao nome de Foucault – como se ele fosse o último Comunista, o último grande esquerdista, ou a fundamentação teórica para todos os relativismos culturais, ou pior, para todos os terrorismos. Antes Michel Foucault era tido como individualista e conservador; hoje lê-se sobre o “bonde do Foucault” na imprensa e nos blogs. O que houve?

Publicado em:  on 14 14UTC Novembro 14UTC 2008 at 10:15 pm Comentários (3)
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3 Comentários Leave a comment.

  1. "ou talvez, como protesto contra algo que, para mim, não está claro"… ou talvez, como protesto contra algo que, PARA ELES, não está claro.

    Quanto à tua pergunta, a frase acima responde: o que houve é que tudo aquilo que diz respeito ao "bonde" do Foucault deve muito mais aos propagadores do bonde, do que ao Foucault.

    E não se trata de defender o Foucault, mas sim a leitura. Ponto a ponto do que você escreveu acima não tem nada a ver com Foucault, mas sim com certas más leituras dele, que se propagaram. Desde o 'pós-modernista porraloca', passando por aquela definição de 'libertário', e chegando no 'bonde'.

    Seriam sinais dos tempos? É muito mais fácil se posicionar sem ler, do que ler e depois se posicionar… e descobrir que via de regra esse palavreado de 'direita' e 'esquerda' dividem pontos em comum, aos quais Foucault já deu seu riso filosófico.
    ;)

  2. Além de ter apreciado as tuas palavras sobre o Foucault, é bom ver que chamou a atenção do Catatau, um ilustre blogueiro e grande conhecedor da obra do filósofo supracitado!
    E os teus comentários sobre as críticas de setores da esquerda à obra dele — críticas essas que considero mesquinhas e equivocadas, em minha humilde opinião — me fizeram lembrar de outro equívoco, este apontado pelo psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours, cometido pelo sindicalismo francês dos anos setenta do século passado — e extensível a boa parte do sindicalismo ocidental à época —, que foi o de negligenciar os estudos sobre as relações entre subjetividade e trabalho, alegando que privilegiavam a subjetividade individual, o que levaria a práticas individualizantes e inibiria a ação coletiva, ou seja, seria algo "pequeno-burguês" e de natureza essencialmente reacionária. Se o sindicalismo soubesse como essa visão contribuiu ainda mais para a fragilidade sindical e a dessindicalização das décadas posteriores, sem falar nas radicais transformações ocorridas na esfera do trabalho, não teriam insistido nessa besteira, ela sim reacionária…

    Abs.

  3. Caro Ricardo Cabral,
    Caro Catatau – Toupinambaoult polilingüístico! (hehehehe)

    em primeiro lugar agradeço imensamente a presença de vocês, com comentários melhores que a postagem.

    Sim, Catatau – iniciei esta série de postagens (estou trabalhando na segunda parte do texto, agora) não só porque havia decidido revisitar a obra do Foucault, mas porque estou de saco cheio com a quantidade absurda de besteiras, juízos de valor emitidos por gente que nunca leu a obra do filósofo – e acho que nunca leu NENHUM filósofo na vida – , gente, enfim, para quem emitir opinião a qualquer custo e fazer essa opinião (doxa) prevalecer de qualquer jeito é mais importante do que ler, pensar, estudar.

    "Sinal dos tempos?", vc. pergunta. Cara, na boa: esses "tempos novos" já começaram há alguns anos, eu até arrisco uma data: 11/09/2001. Desde lá, oposição ao neo-liberalismo, crítica ao pensamento único, pacifismo, diplomacia, movimentos sociais, tentativas de pensar a pluralidade étnica mundial foram reduzidas a coisas como "ideologia", "esquerdismo", "relativismo", "anacronismo" e, enfim, "terrorismo". Tudo isso me lembra imediatamente Deleuze e o "post scriptum sobre as sociedades de controle", quando ele avisa sobre a vinda de forças de reação numa intensidade ainda não vista. Poís é, elas chegaram e estão aí. Hard Times, my brother!

    Ricardo, sim, é isso mesmo: a esquerda esclerosou de forma tão retumbante que não conseguiu ver o que estava diante do seu nariz, isto é, uma classe trabalhadora cada vez mais diferente daquilo que ela fora nos até a Segunda Guerra Mundial. Não entenderam que, após 1945, e nos anos 1960/70, em particular, o ambiente de trabalho havia mudado, as condições de consumo haviam mudado, a escolarização dos trabalhadores havia mudado. Só as direções sindicais não haviam mudado e se aferraram ao "senso comum" de esquerda (sim, existe um!). ReSuLtAdO: dessindicalização e crise.

    Agora, enquanto isso acontecia na Europa, no Brasil havia justamente um aumento da sindicalização e o ressurgimento do movimento operário como força política, no final dos anos 1970 – com o sindicalismo do ABC e com as centrais sindicais. A retórica era de esquerda, mas o que aquele movimento operário e suas lideranças desejavam pouco tinha em comum o reacionarismo das direções sindicais européias.

    Eu penso que devemos nos perguntar se hoje, na esquerda brasileira, não está acontecendo algo parecido com o que ocorreu com os sindicatos e a esquerda francesa dos anos 1970. No que o PT se transformou? Por que ele não conseguiu romper com o populismo que as direções do partido, e seus intelectuais, criticaram por tantos anos?

    Por fim, que direita é essa que está sendo criada no Brasil? Aparentemente sofisticada, ela tem sua máquina de guerra implantada na imprensa, e voltada contra os movimentos sociais, contra qualquer político de esquerda, contra qualquer tentativa de construção de um estado de bem-estar social. A retórica é tecnicista e aparentemente civilizada, mas mobiliza o mais profundo e enraizado ressentimento de classes existente no Brasil. É horrorosa, e não por acaso deu espaço para que teses revisionistas sobre a ditadura militar (em especial escritas por Jarbas Passarinho e, com menos freqüência e maior veemência, por Olavo de Carvalho. Fora a quantidade de sites na internet que se dizem "libertários" mas são do maior reacionarismo disfarçados de liberalismo americano. São essas questões que me preocupam no momento, pelo ressentimento político que elas mobilizam.

    Sobre esse ressentimento político, eis aí algo que podemos conversar.


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