É sempre interessante e proveitoso ler os textos de Eric Hobsbawn, em particular quando suas análises históricas tratam de assuntos atuais. No retorno às postagens – depois de uns dias bem difíceis e sem tempo, trato de dois textos recentes de Eric Hobsbawn.
O primeiro texto intitulado “Dois impérios: duas lógicas”, estabelece uma análise comparativa entre o poderio atual dos Estados Unidos – no momento, único país a ocupar o posto histórico de um império, e o antigo Império Britânico, cujo desmantelamento ocorreu no imediato pós-segunda guerra mundial. Essa comparação foi publicada no Le Monde Diplomatique Brasil de novembro último e além de instigante, chama a atenção para algo que desde o início desta década Michael Hardt e Toni Negri vêm insistindo, a saber: os Estados Unidos são um Império absolutamente peculiar, e não uma nação imperialista. Qualquer pessoa que quiser entender a diferença do jogo político internacional, bem como a situação da cultura contemporânea deve entender esse novo cenário, bastante diferente tanto das práticas do imperialismo britânico (encerrado na Segunda Guerra Mundial) e que foge completamente das análises mais usuais de esquerda, principalmente daquelas derivadas do marxismo-leninismo.
EUA e Grã-Bretanha, segundo Hobsbawn, se assemelham pelo fato de que, em suas épocas de hegemonia, garantiram a supremacia militar (naval, no caso britânico; aérea, para os americanos), e por terem dominado a indústria mundial. No entanto as semelhanças param aí:
Diferenças territoriais: A Grã-Bretanha é uma ilha, o que fez com que, em sua história, o seu excedente populacional fosse usado para povoar novas colônias. A Grã-Bretanha especializou-se em produzir colônias de emigrantes, enviando sua população ao redor do planeta. Os Estados Unidos, ao contrário, dadas suas dimensões territoriais e sua expansão, receberam imigrantes, com a finalidade de preencher seus espaços. A história do crescimento norte-americano portanto é, em larga medida, a história do crescimento de seu próprio espaço interno, de um oceano ao outro, produzindo um país-continente de dimensões comparáveis apenas ao império russo, em termos de tamanho e complexidade. Dessa forma, segundo Hobsbawn, o “império americano é o produto lógico de sua expansão, baseada numa identificação quase total entre país e continente”.
Mas para além de quaisquer idealizações ou mitos fundadores, a produção desse país-continente, com um poderosíssimo mercado interno, foi realizado através de um processo de destruição das populações nativas do continente americano, mortas em conflitos de terras e por doenças transmitidas de forma voluntária ou involuntária pelos colonizadores. Some-se a isso a exclusão jurídica, já que a Constituição norte-americana excluiu os indígenas do corpo político nacional, quando do momento da fundação do país.
Expansão externa: a expansão britânica foi realizada através da fundação de colônias, com a ocupação de territórios já povoados, nos quais os colonizadores britânicos formaram “elites brancas”, tanto na Ásia quanto na África. Não havia no entanto, segundo Hobsbawn, qualquer traço de messianismo político na ação britânica em sua colônias: se o império britânico jamais pôs em dúvida a superioridade de sua cultura, nem deixou de justificar as suas ações em territórios ocupados como ações civilizadoras, nunca teve uma pretensão global, nunca esteve engajada em uma “campanha” para converter ou difundir os valores da “cultura ocidental”. Isso demarca a expansão britânica: uma combinação entre uma economia construída a partir de relações comerciais eminentemente internacionais através de suas colônias, por meio de tratados comerciais com outros países, por pressão diplomática ou por aproveitar saber aproveitar muito bem situações entre países para poder comercializar os seus produtos. Sua industrialização foi voltada para o mercado externo, para exportação e para o fortalecimento comercial britânico com o mercado internacional.
O caso americano apresenta uma lógica bastante diferente. Referindo-se à Hanna Arendt e Tocqueville, Hobsbawn chama a atenção de que a formação dos Estados Unidos é fortemente marcada pelo fato de que sua revolução teve uma duração muito maior do que qualquer outra revolução iniciada no século XVIII.i Com a revolução ocorreu a consolidação de uma atitude messiânica relativa à superioridade cultural e nacional dos Estados Unidos – superioridade advinda de um país livre, e de uma liberdade construída através de uma revolução anti-despótica. Toda a ação externa norte-americana é animada por essa convicção nacional de sua superioridade histórica, como a contínua renovação de seu papel histórico de promotor da liberdade.
No âmbito interno, esse é verdadeiramente o que anima os movimentos sociais americanos, em suas várias tendências políticas e ideológicas: é a memória da luta pela liberdade que é invocada tanto pelos “liberals” quanto pelos conservadores, criando uma política fundamentalmente anti-aristocrática – Hobsbawn a chama mesmo de “anti-elitista”. Um país de forte liberdade individual e econômica, propícia à formação de novos capitalistas oriundos de diferentes origens sociais – ao contrário da Grã-Bretanha, em particular da Inglaterra e da Escócia, altamente aristocráticas e com uma classe dominante que era composta, até a década de 1920, de famílias nobres e tradicionais.
No âmbito externo, no entanto, a ação dos Estados Unidos é bastante diferente daquela realizada pela política expansionista britânica. Seu poder não foi garantido pela produção de colônias, nem mesmo pela expansão de suas grandes indústrias por todo o mundo. Em primeiro lugar, os Estados Unidos constituíram seu poderio através de seu gigantesca força militar: sua capacidade de ataque lhe permite interferir militarmente em qualquer região do mundo, a partir de sua força aérea. Essa superioridade militar, construída desde a Segunda Guerra, faz com que os Estados Unidos tenham uma rede de “estados vassalos”, alinhados com a defesa dos princípios políticos e dos interesses norte-americanos.
Essa rede de “estados-vassalos”, no entanto, foi mais forte durante o período da guerra-fria, quando a oposição à URSS era uma ameaça real. (Aliás, Hobsbawn se pergunta se sem a guerra-fria, os Estados Unidos teriam se tornado a referência cultural e financeira do chamado “mundo livre”.) Hoje a relação entre os Estados Unidos e o resto do mundo, além da possibilidade de interferência militar, é garantida pelo fato de que a economia interna americana é tão grande, tão poderosa, diversificada e com um poder de consumo tão formidável, que ela se tornou um ponto de investimento para o mundo todo. Diferente do antigo império britânico, colonizador e exportador, os EUA são um país continental, com um mercado interno gigantesco, alimentado por investimentos mundiais e reforçado por um poderio militar que lhe pode, virtualmente, garantir os seus interesses mundiais. Sua ação externa não busca fundar colônias, mas antes estabilizar áreas de influência contra inimigos externos que são fluidos: ao não terem inimigos históricos – como foi a França para a Inglaterra, por exemplo, – a construção da figura do inimigo externo nos Estados Unidos é produzida a partir da comparação entre o ideal messiânico americano e os virtuais opositores do American Way of Life, lugar que pode ser ocupado por diferentes personagens, dependendo do contexto histórico e internacional existente.ii
Em suma, Hobsbawn chama a atenção para o fato de que qualquer comparação entre os Estados Unidos e o Império Britânico – ou qualquer outro império – não explica, metodologicamente, a hegemonia americana. Não se apreende os Estados Unidos simplesmente sendo “contra” ou “a favor” à ele, ou denunciando-o como “nação imperialista”. O império britânico não se apoiou na força militar, e sua diplomacia percebeu quando os limites históricos de seu poderio foram atingidos – constatando, por exemplo, o fim da era do comércio mundial marítimo. Os Estados Unidos, diante do mundo atual, tem mantido o poder militar como uma fonte de hegemonia, particularmente com o governo Bush. No entanto, as condições que lhe garantiram a hegemonia mundial – especialmente a Guerra Fria – se encerraram. Assim, é possível que o limite para o exercício de seu poder internacional esteja se afigurando no horizonte, não de forma cataclísmica, mas no que parece ser uma diminuição gradual de sua importância, à medida que novos mercados internacionais surgem com a globalização. Mas, de novo, essa situação de análise internacional exige novos conceitos, novas análises históricas, novos mapeamentos de cenários políticos e econômicos. Então é preciso estar atento e receptivo. A pregação neo-liberal não tem outra coisa a oferecer a não ser ideologia. Mas as explicações derivadas do marxismo-leninismo também não.
Tempos interessantes!
∩ ∩ ∩
O segundo momento de Hobsbawn trás uma constatação bem preocupante. Em entrevista à BBC, o historiador alerta para a ausência da esquerda no debate sobre a crise atual, e adverte para o perigo de um fortalecimento político de uma direita mais radical. Isto porque Hobsbawn concorda que o que está acontecendo não é comparável apenas à crise de 1929, mas ao colapso da antiga URSS.
De novo o historiador adverte a esquerda, indicando que se se pode pensar a crise e o mundo atual a partir da obra de Marx, a esquerda e o marxismo não possuem mais uma linguagem capaz de dizer esta crise, de torná-la mais clara, e de lhe propor alternativas. Ponto para o Jon Elster…
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NOTAS
i A memória da revolução americana ainda hoje é reivindicada pelos diversos grupos políticos americanos. Tratamos disso em uma postagem anterior, nesse mesmo blog.
ii Jacques Rancière escreveu um interessante texto comentando como a “doutrina Bush” procurou destruir qualquer limite jurídico mundial, bem como modificar a legislação e as convenções de guerra, de forma a caçar Bin Laden “vivo ou morto”, fazendo com que o exército americano se comportasse como uma espécie de “polícia mundial” dos assuntos americanos. O texto é intitulado Prisioneiros do Infinito e pode ser lido clicando aqui.
