Participo com prazer do Café História. Leio e acompanho as postagens há um bom tempo, mas só agora, com mais disponibilidade, resolvi contribuir com as discussões. É uma maneira divertida de relembrar leituras, de mobilizar a memória do que se já aprendeu, de retornar a alguns livros e ver novos materiais sobre História e Ciências Humanas na internet. Além disso é um ótimo passatempo e uma maneira divertidíssima de escrever e conhecer gente nova.
Tudo isso depois de falar com a namorada que se ama, ouvindo boa música (Hard Rock, Samba, Blues ou música clássica) e acompanhado de umas pequenas e lúdicas doses de vodka com suco tornam a vida uma verdadeira benção!
Mas, principalmente, vejo em grupos como o Café História uma oportunidade educacional. É isto mesmo: participar de discussões na internet em espaços como o Café História (eu ampliaria isso para a blogosfera e para as redes sociais, como Orkut e Facebook) é uma maneira divertida e importante de educar, de aprender e de ensinar.Isto porque, a partir de questionamentos, de dúvidas e da curiosidade (não há História sem isso!) é possível interferir diretamente na percepção e nos conhecimentos relativos à História. É possível orientar, polemizar, corrigir, educar e aprender, por meio da colaboração coletiva, uma série de conhecimentos sobre a História. Isto, praticamente, em tempo real.
Acabo de postar um tópico em uma discussão levantada por um dos participante do Café História, o Sérgio Braga Osório. Ele lançou a seguinte questão em um fórum de discussão desta rede, a partir da seguinte pergunta: “- Teria sido possível Noé ter feito uma embarcação daquelas proporções? E mais, como fazer tudo aquilo estando só? E porque não levou humanos? E porque a “arca” ancorou em cima de um morro ?”
Seria fácil tomar uma atitude do tipo “isto é bobagem”, ou coisas do gênero, mas proceder assim seria desconsiderar a curiosidade de quem escreveu, e perder uma bela chance de explicar as implicações da pergunta – por puro preconceito!!!
Transcrevo aqui a minha resposta dada na discussão:
A pergunta, amigo, seria muito apropriada… se estivéssemos nos domínios da arqueologia religiosa tal como praticada no século XIX, quando os arqueólogos procuravam evidências materiais que pudessem comprovar a existência (ou não) das passagens bíblicas, legitimando as Escrituras ou atestando que são inverossímeis. Esta produção, no século XIX estava fortemente marcada pelo Positivismo – paradigma científico dominante na época -, desenvolvendo debates do tipo: como compreender historicamente os “fatos” bíblicos ou como descartá-los, já que à luz da ciência eles se provariam errôneos, ou “superstições”.
Este debate, do ponto de vista histórico, ou mesmo moral, já está superado. Em primeiro lugar porque, se levarmos ao extremo os estudos históricos, quase a totalidade do que está escrito nos livros religiosos não se comprova, ou possui uma explicação perfeitamente cabível. Vide a quantidade de crenças medievais desmontadas desde o Renascimento, ou mesmo pelos teólogos (cf. a crítica que o teólogo católico norte-americano Donald Spoto faz da “Cruzada das Crianças” que, segundo ele, nunca existiu de fato; esta passagem está nas páginas 196-198 de seu belíssimo livro Francisco de Assis – o santo relutante (trad. S. Duarte. Rio de Janerio: editora Objetiva, 2010)). A arqueologia bíblica, atualmente, é importante porque traz uma série de análise, a partir da cultura material, sobre a história e os contextos social, cultural e linguisticos nos quais os textos bíblicos foram escritos e apropriados, ajudando a compreendermos mais claramente as fontes da experiência religiosa.
Segundo, e mais importante: no limite não é tão importante saber se a Arca de Noé, ou quaisquer dos relatos bíblicos realmente aconteceram. Isto porque os livros religiosos devem ser tratados como narrativas míticas que fornecem um conhecimento de ordem moral e ético. Sua leitura tem efeito de produção de verdades morais, de padrões éticos, de conhecimentos sobre o certo e o errado, sobre o que é tolerável e intolerável. São fontes de padrões de comportamento fundamentados em narrativas míticas e na tradição. A crítica histórica e teológica é importantíssima para sabermos melhor sobre a produção destes textos, suas interpretações e para melhor instruir os líderes religiosos e os fiéis contra leituras de caráter fundamentalista. Servem para corrigir a memória religiosa, amparar e enriquecer esta experiência, livrando-as de interpretações absolutamente sem fundamento. O mesmo raciocínio serve para a vida de mártires e santos, como, por exemplo, São Francisco de Assis - talvez o primeiro europeu católico da história a advogar um plano de paz entre cristãos e muçulmanos, inclusive recomendando que não se deveria forçar o proselitismo católico entre o Islã (vide livro citado).
Em suma: procurar legitimar, através da História, a verdade da existência de algo religioso, bem como procurar demolir em definitivo crenças religiosas também através de estudos históricos é a pior leitura possível que se pode fazer em relação à religião. Qualquer uma! Esta atitude está errada, visto que toma por “fato” uma narrativa que é mítica, bem como retoma – mesmo que involuntariamente – uma discussão que no limite nos leva ao fundamentalismo, seja religioso, seja anti-religioso.
Portanto, caro Sérgio, polidamente eu diria que sua questão teve o mérito de levantar um debate e a curiosidade sobre as relações entre história e religião, ou mais precisamente sobre a historicidade dos textos religiosos. Como problema histórico, realmente não é muito importante, seja porque a existência da Arca de Noé não pode ser realmente comprovada, seja porque ela não é a melhor pergunta para o que realmente importa: o que o relato da Arca de Noé tem a nos dizer hoje, moralmente e eticamente? Esta é uma questão que vale a pena pensar, assim como para outras passagens bíblicas. Agora buscar na Históriacomprovações para verdades religiosas é retomar uma atitude medieval… e no limite, pouco prática, pouco importante, até mesmo bastante perigosa.
Relendo os tópicos desta discussão, entendi a questão do Sérgio, e respondo: não há resposta! O que você quer só pode existir de forma puramente especulativa. Você não vai achar plantas da arca, nem relatos de como os animais foram levados para ela. É divertido pensar nisso… como ficção. Como História, incorre em tudo que eu falei em minha postagem anterior.
Entenda uma coisa, de uma vez por todas: o que está em livros religiosos de quaisquer espécie são relatos míticos. Não tome a narrativa da arca de noé como fato, pois não é. Pode ser um fato da tradição, ou um fato textual, mas não um acontecimento real. Simples assim.
Existem outras respostas a este tópico, bastante interessantes. Claro, existe pessoas que extrapolam (vide a discussão e a minha resposta) mas mesmo quando as pessoas dizem certos absurdos isso é válido. Isto porque, em comunidades como o Café História, ou nas redes sociais, o que é falado não é somente uma opinião pessoal, mas pontos de vista bem ou mal fundamentados sobre um determinado assunto. Aqui, leitura, formação e uma boa capacidade de escrita são fundamentais para tocarmos os outros, sensibilizá-los e fazê-los aprender – e aprendermos – com eles. É uma maneira de usarmos nossa inteligência por meio do trabalho do pensamento, de forma pública, séria e ao mesmo tempo prazerosa. Até porque, lembrando a já clássica lição de Marc Bloch, um dos principais motivos para estudarmos História reside no prazer que ela nos proporciona: prazer em aprendermos, prazer em sermos melhores. Isto já é suficiente para amarmos a História, e para nos dedicarmos à ela.
Por fim é importante salientar que, por meio da internet, construímos saberes coletivos que deveriam ser melhor aproveitados pedagogicamente e – por que não? - politicamente, uma vez que, quando nos posicionamos em fóruns, chats de discussões, ou respondemos a tópicos de discussões, estamos publicando nosso conhecimento, aperfeiçoando-o e corrigindo-o. Com prazer. Esquecer essas ferramentas virtuais é esquecer que o espaço do conhecimento e da educação já ultrapassou há muito tempo os muros da escola. Chats, comunidades virtuais, MSN, Facebook e blogs não são instrumentos de comunicação apenas, mas de expressão de individualidades, de desejos, de imaginação. E um destes desejos é justamente o desejo de aprender.
Mas nós, de maneira geral, estamos preparados para isso? E estamos preparando nossos alunos para aprenderem com o que vivem e com o que experimentam?
Isto é algo para pensarmos…
Em tempo: quem quiser visitar minha página no Café História, é só clicar aqui.

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