Concordata entre Brasil e Vaticano atinge a laicidade do estado brasileiro?

Assim que publiquei a postagem anterior, me senti muito insatisfeito com a notícia, em primeiro lugar porque eu achei o caso tão absurdo que, por todos os ângulos de análise, ele me pareceu completamente inconstitucional. Em segundo lugar, me perguntei se, dada sua grande chance de inconstitucionalidade,  tudo isso não passaria de uma grande tempestade em copo d’água.

Resolvi, portanto, conversas com alguém da área de direito, que além de advogar em causas específicas de direito civil, é civilista, docente na área de direito civil, com mestrado em direito civil e, acima de tudo, bom senso, sabedoria, equilíbrio emocional, disciplina, objetividade e grande capacidade de argumentação – ou seja, tudo o que eu não tenho. Trata-se de minha esposa, que além de tudo isso, é linda!

Pois bem: na opinião dela, os termos da concordata são completamente inconstitucionais. A Constituição define o Brasil como um estado laico, e mesmo que a CNBB venha a ser a instância reconhecida juridicamente para tratar de assuntos ligados ao Vaticano, qualquer acordo que determine que um direito religioso se sobreponha ao direito civil será simplesmente ignorado pelo judiciário. A única forma, segundo esclarecimentos da Chris, de acontecer algo parecido com o alerta da reportagem da SBPC, é mudar completamento o Código Civil – o que é absurdo.

Se, por fim, o Congresso Nacional decidir levar adiante essa idéia, o Supremo Tribunal irá indeferí-lo como inconstitucional, e na prática nada do que ele estipular terá validade perante o código civil.

Agora, então, por que essa situação toda armada pelo Ministério das Relações Exteriores? Por que a Concordata nesses termos?

Com a palavra os leitores – se acharem que vale a pena discutir isso aqui… Na opinião deste blog, bem, não existem coisas mais importantes a serem discutidas? Reforma tributária, por exemplo? Mas que qualquer decisão política que venha a configurar loucuras jurídicas como essa espantam, sim, espantam.

Publicado em: on 12 12UTC Dezembro 12UTC 2008 at 9:19 pm Comentários (1)
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Concordata entre Brasil e Vaticano atinge a laicidade do estado brasileiro

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O Jornal da Ciência, da SBPC (link ao lado),  publicou ontem artigo de Roseli Fischmann, professora da faculdade de Educação da USP, com notícias preocupantes sobre o acordo  entre o Brasil e a Santa Sé, assinado no dia 13 de novembro último e tornado público somente depois de sua assinatura, quando de sua tramitação na câmara dos deputados. Para quem desejar, o texto da concordata pode se acessado diretamente a partir do site do Ministério das Relações Exteriores.

O acordo define o próprio estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil, e estabelece a CNBB como a instância local de representação da Igreja, com a qual o governo brasileiro passará a dialogar para assuntos como ensino religioso, casamento e outros pontos que precisem ser regulamentados no futuro, após a assinatura do acordo.

Segundo Roseli Fischmann, os principais problemas que a ratificação da concordata bi-lateral entre Brasil e Vaticano apresenta são os seguintes:

Em primeiro lugar, trata-se de um acordo entre um estado teocrático e uma república. Nada impede que o Brasil faça acordos com uma teocracia, mas estes acordos internacionais incidem sobre o direito nacional. Dessa forma, decisões tomadas a partir do Direito canônico serão incorporadas – ou  irão interferir – na legislação de uma república, que por definição é laica, com separação oficial entre Igreja e Estado. Ao se firmar uma concordata em que uma das partes possui dupla identidade e é regulada por um Direito bastante diferente do nosso (Direito Canônico), como conciliar esta situação? Nas palavras da autora do artigo,

Observe-se que o texto assinado busca justificação “baseando-se, a Santa Sé, nos documentos do Concílio Vaticano II e no Código de Direito Canônico, e a República Federativa do Brasil, no seu ordenamento jurídico”. Ora, essa identidade dupla – Santa Sé, como identidade política de Estado, e Igreja Católica, como religião – tem direito de escolher a norma que quiser para regulamentar sua vida e de seus seguidores; estes merecem respeito em seu direito de crença e culto, mas também merecem que sejam respeitados seus demais direitos como cidadãos brasileiros, sendo que poderão invocá-los quando quiserem, sem restrições ou privilégios.

Já o Brasil, sendo uma República, que tem no princípio da laicidade do Estado um de seus fundamentos desde sua proclamação em 1889, pode evidentemente dialogar, como dialoga com religiões e outras forças sociais, mas não fazer acordo com entidade jurídica que, baseando-se em princípios teocráticos e normas exaradas a partir desses mesmos princípios, busca estabelecer condutas e deveres, enquanto suprime direitos de cidadãos brasileiros em território brasileiro.

Mais que estabelecer o território dos templos católicos como se tivessem imunidade diplomática, o acordo estende seu braço normativo e restritivo de direitos estabelecidos pela Constituição Federal ao conjunto da cidadania brasileira. Como isso se dá?

Não sabemos, mas já podemos ficar preocupados com o problema da representação política: o artigo 18 da concordata estipula que a CNBB será a representante do Vaticano no Brasil. Atenção, a CNBB, não uma comissão paritária (como é em Portugal), nem qualquer grupo ecumênico composto dentro da Câmara dos Deputados, nem qualquer outro foro. Isso dá à Igreja Católica um poder de representação e de negociação com o estado brasileiro que a) deixa a Igreja Católica em posição de enorme vantagem frente às outras religiões; b) o que é mais preocupante: cria uma situação na qual os direitos civis dos indivíduos passam a sofrer uma duplicidade de jurisdições, tanto a do estado brasileiro quanto da Santa Sé e do Direito Canônico. A situação mais imediata, na qual se pode sentir os efeitos dessa duplicidade incide sobre a questão dos casamentos e dos divórcios:

(…) O artigo 12 do texto assinado no Vaticano afirma a possibilidade de se atribuir validade civil ao casamento religioso, como previsto na Constituição Federal, contudo inovando ao expandir para a Igreja Católica em seu parágrafo 1.º: “§ 1º. A homologação das sentenças eclesiásticas em matéria matrimonial, confirmadas pelo órgão de controle superior da Santa Sé, será efetuada nos termos da legislação brasileira sobre homologação de sentenças estrangeiras.”

Se o caput do artigo não inova em relação ao que já permite a Constituição Federal, ou seja, que casamentos religiosos em geral, desde que reconhecido pela respectiva autoridade religiosa, aí incluídas religiões e denominações com existência regular no Brasil, possam ter efeito civil. A inovação se dá a abrir a porta para que anulações religiosas sejam reconhecidas com validade civil, privilegiando uns contra outros que dependem, para igual medida, de trâmites junto a apropriados órgãos do Estado, com o respectivo tratamento jurídico.

É que, por não reconhecer o divórcio, tendo inclusive retardado ao máximo a aprovação da lei que o estabeleceu no Brasil apenas em 1977 – e frente ao fato de que muitos católicos se vêm na iminência humana de valer-se do direito que lhe é próprio como cidadão brasileiro de divorciar-se e contrair novo matrimônio –, a Igreja Católica procura saídas por sobre a legislação brasileira, deixando decisões delicadas a cargo de pessoas e processos não ligados ao Estado, portanto sem garantia de isonomia no tratamento das diferenças.

Assim, o princípio da igualdade é violado duplamente: pelo procedimento, à margem do Judiciário, e por colocar o Estado brasileiro a tratar como estrangeiro, no Brasil, o próprio cidadão brasileiro. Ou seja, neste caso, o texto do acordo atropela a soberania nacional, o Legislativo e o Judiciário.

Na prática, portanto, abre-se a possibilidade da própria Igreja Católica “amarrar” o Direito Civil ao Direito Canônico, numa tentativa de anular a liberdade garantida pelo primeiro em detrimento da normalização, de base teocrática, do segundo. Se isso vier a acontecer, então, de fato, fica a laicidade do estado brasileiro comprometida.

Pessoalmente, me preocupa o fato de que a CNBB, ao ser considerada a grande representante do Vaticano para tratar dos assuntos da Santa Sé no Brasil, seja igualmente responsável para tratar com o estado brasileiro sobre o ensino religioso. Com certeza, se a CNBB mantiver o ensino religioso católico circunscrito às escolas religiosas, ou às paróquias, direito dela. No entanto, em um momento em que se tenta firmar o ensino de religião nas escolas públicas, o poderio desigual de representação da CNBB pode vir a tornar difícil essa discussão, frente à necessidade desse tipo de ensino ser absolutamente ecumênico – isto, se ele vir a ser aprovado – o que este blog, com enorme sinceridade, espera que não aconteça, seja esse ensino religioso católico ou não, ecumênico ou não, na medida em que as escolas públicas precisam se ocupar com ciências e ciências aplicadas, e não com religião. Mas esta é uma outra discussão, que ficará mais complicada, penso, se o acordo entre Brasil e Vaticno for ratificado nos termos em que está escrito atualmente.

Ainda Ghiraldelli

(Atualizado em 09/12/2008, às 07:58)

As últimas postagens do blog do Ghiraldelli estão imperdíveis:

  • uma trata da briga (que quase ocorreu mesmo!) entre Popper e Wittgenstein, ponto de partida para pensarmos, hoje, as relações entre as obras desses dois pensadores, particularmente no que diz respeito ao problema da verificabilidade das teorias científicas e do perigo de se reduzir o argumento da falsicabilidade de Popper a um neo-positivismo que separa tudo entre “ciência” e “pseudo-ciência”;
  • Outra, da falta de imaginação e o conservadorismo que atinge as administrações do ensino superior público e privado; e
  • Por fim, uma terceira contendo uma avaliação crítica dos argumentos de “esquerda” e de “direita” sobre a crise do ensino público.
Publicado em: on 8 08UTC Dezembro 08UTC 2008 at 8:45 pm Deixe um comentário
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Rede social do Paulo Ghiraldelli Jr.

Há tempos estou para escrever sobre o trabalho incansável que o Paulo Ghiraldelli Jr. vem realizando por conta própria. Já acompanho seus textos há alguns anos, desde 2003, quando ele ainda escrevia em seu primeiro site, depois convertido em blog (ver link direto no ítem “Pensamento”, na barra de links ao lado). O que me chamava atenção, naquela época, era a grande capacidade do Ghiraldelli realizar pensamento a partir de praticamente qualquer coisa, principalmente do cinema. Ainda me lembro de um belo texto dele, o nome, salvo engano, era “Um filme do qual Adorno teria gostado”, sobre o filme “O informante”, a partir do qual Paulo Ghiraldelli Jr. fez um excelente texto sobre a relação ética entre os personagens, bem como sobre a ética e a amizade. Infelizmente não reencontreio o link para este texto, uma pena.

De qualquer forma, o filósofo, que já foi professor da UNESP, deixou a universidade e resolveu investir seu esforço no Portal Brasileiro de Filosofia, projeto que ele realizou ao lado do cientista político Alberto Tosi Rodrigues. Além do portal, Paulo Ghiraldelli Jr. mantém seu blog fartamente atualizado, além de um rede social na internet muito legal mesmo, na qual é possível participar do blog geral da rede, criar blogs localizados e produzir tópicos de discussões.

Não bastasse isso tudo, Paulo Ghiraldelli Jr. ainda apresenta um programa interativo de filosofia pela internet, o Filô das 23:00, que vai ao ar de segunda à sexta-feira, com os participantes podendo conversar com o filósofo, fazer perguntas e discutir seus pontos de vista através do MSN. Para os que vão assistir o Filô, um aviso: a discussão é séria, com pique de aula. Quem for lá achando que vai falar qualquer besteira e ser admirado, ou encontrar um salão de espelhos para ficar se admirando, ou que acha que discutir filosofia é falar um monte de palavreado sem sentido, melhor nem ir, vai quebrar a cara e ouvir uma esculhanbação muito bem humorada – como aliás tem que ouvir, mesmo.

Dos sites de filosofia na internet brasileira – e infelizmente não são muitos – todas as iniciativas do Paulo Ghiraldelli Jr. contituem, no Brasil, a melhor e mais bem acabada realização do diálogo entre a Filosofia com os não-filósofos e com todos aqueles que, sendo ou não filósofos, estão sempre prontos a pensar problemas concretos, e que são tocados por algum tema filosófico, de forma intensiva – justamente aquilo que Deleuze denominou certa vez de pop-filosofia, e que não deve ser confundido com banalização da filosofia.

Em tempo: quem quiser dar uma olhadinha na página que eu montei na rede social do filósofo, basta clicar no link que eu coloquei aí ao lado, na seção “Blogs do Autor”.

6 momentos históricos (ou 6 – 3 – 3)

http://www.geocities.com/renatogimenes/1991b.jpg

Em homenagem ao primeiro título: Antenor, Estevão, Getúlio, Chicão, Bezerra, Valdir Perez.
Agachados: Viana, Teodoro, Mirandinha, Dario Pereira e Zé Sérgio. Técnico Rubens Mineli

Publicado em: on 7 07UTC Dezembro 07UTC 2008 at 11:12 pm Comentários (1)
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Enquanto isso, na blogosfera… (I)

Demorou um pouco, mas vamos lá: estou atualizando a lista de blogs aqui ao lado, e gostaria de comentar alguns do blogs que andei frequentando ultimamente.

Em primeiro lugar, começo com um blog conterrâneo, aqui da bela Santa Maria de Belém do Grão-Pará: o Velho do Farol, tremendo blog em atividade desde 2004. As postagens vão de comentários sobre comportamento, política internacional, arte e notícias de Belém do Pará. Fiquei particularmente feliz em perceber um blog tão bom sediado aqui na cidade e, felizmente, blogs de qualidade vem se muntiplicando aqui em Belém, como se pode notar na comunidade Blogueiros Paraenses, no Orkut.

Estou incluindo um banner para apoiar toda a rede O Pensador Selvagem, Tanto o site quanto a rede de blogs são demais: da matemática à literatura, da filosofia aos games, os blogs que compõem esta rede estão anos-luz acima da média da blogosfera nacional, sem exagero. Aliás, a própria proposta do site já é claramente inteligente, na medida em que se inspira no Pensamento Selvagem, de Claude Lévi-Strauss. (ara quem quiser mais informações sobre este livro, o link leva a uma bela resenha de Solange Caldeira sobre essa obra de Lévi-Strauss.)

Chego a me sentir mal por ter de destacar blogs no interior da rede O pensador selvagem, mas não posso deixar de indicar ao menos dois deles: Modos de Fazer Mundos, do Cesar Kirally, altíssimo nível nas discussões sobre filosofia, dentre as quais destaco as postagens nas quais estão transcritas as aulas de Cláudio Ulpiano – se bem que na prática, todos as postagens da tag “filosofia” merecem ser lidas; e comento um blog do qual sou admirador confesso, Ágora com Dazibao no Meio, projeto de Ricardo Cabral, que além de trazer postagens instigantes sobre literatura, livros e cinema (se duvida, dá só uma olhadinha nesse post aqui que o cara fez!!!), ainda tem um dos nomes de blogs mais legais e inusitados que eu já vi. De longe é um dos blogs que mais gostei até agora, ao lado do Dicionário Invertebrado, recomendado acima.

E por falar em Lévi-Strauss, o blog Catatau, outro primor, lembrou dos 100 anos do antropólogo, completados no último dia 28/11/2008.

Por fim, NPTO começou uma série de postagens sobre Gramsci, bem ao estilo NPTO: doses muito bem equilibradas de inteligência, competência acadêmica, leituras apuradas e muito, muito deboche!

Publicado em: on 6 06UTC Dezembro 06UTC 2008 at 10:41 pm Comentários (2)
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Dente exposto!!!

Argh! Estou com uma lista de postagens aqui para fazer, mais uma tonelada de trabalhos. No entanto, estou às voltas com um dente quebrado-partido-fraturado de forma radical mesmo o que está me causando uma DOR daquelas.

Aqui, vou observando a máxima infame que postula:  “sempre rir, sempre rir” – e me preparando para uma pequena extração dentária seguida de um tratamento de canal. E uma medicação maneira!

Quem já passou por um tratamento desses sabe como fica bonito o dente durante o processo, principalmente durante a extração dos canais e a execução da radiografia. Pesquisando um pouco na internet, encontrei uma imagem que bem poderia ser batizada como Auto-retrato de um dente durante um tratamento de canal:

Amanhã eu volto, com um dente a menos e muito mais Confortably Numb!!!

Publicado em: on 5 05UTC Dezembro 05UTC 2008 at 8:19 am Deixe um comentário
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Uma Frase (II)

“Um homem inteligente algumas vezes é obrigado a ficar bêbado para perder tempo com suas tolices.”

An inteligent man is sometimes forced to be drunk to spend time with his fools.

Ernest Hemingway

In. Daily Literary Quote.

Publicado em: on 3 03UTC Dezembro 03UTC 2008 at 10:14 pm Deixe um comentário
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Ah não, puta que o pariu, esse lixo outra vez??!?!?!?!??

E eu, que achava já ter visto muita coisa, constato que o fundo do poço tem alçapão!!!

Não bastassem os revisionistas rastaqueras que despejam todo o seu ressentimento contra a democracia na internet, fazendo a apologia da ditadura a partir do argumento cínico de que ela “combateu o terrorismo”, pesquisando alguns sites sobre reacionarismo político, não é que eu encontro um bando de cretinos que estão tentando exumar o cadáver pútrido do Integralismo?

Imbecis não faltam para espalhar esse lixo! E se vocês acham que eu estou paranóico e doidão, aviso que a Revista de História da Biblioteca Nacional já se manifestou sobre a volta desses descerebrados. Resta torcer para que o retorno dessas cavalgaduras seja farsa, e não tragédia, e chamar os leitores de várias tendências políticas e ideológicas, mas que acreditam na democracia, a espinafrarem essas alimárias ridículas!

Ah, sim! E torcer para que a idiotice deles não seja contagiosa!

Publicado em: on 2 02UTC Dezembro 02UTC 2008 at 4:49 pm Comentários (1)
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Andarilhagens

Retornei sábado de outra viagem, desta vez para o município de Bragança, cerca de 250 km distante de Belém.

Sexta e sábado na estrada. Na ida, participação, sexta-feira à noite, no lançamento do livro Trilhos, o caminho dos sonhos: memorial da estrada de ferro de Bragança, escrito pelo pesquisador José Leôncio Ferreira de Siqueira. Organizador de um belo trabalho, ele passou os últimos três anos pesquisando, por conta própria, a história da antiga Estrada de Ferro de Bragança, linha que unificou todo o nordeste paraense entre 1908 e 1964 e que foi a grande responsável, junto das colônias agrícolas fundadas nesta área do estado, desde a década de 1870.

Trata-se de uma história muito menos conhecida que a da Madeira-Mamoré, em grande medida porque, enquanto a esta teve uma história extramamente trágica, a EFB, apesar de todos os problemas, enfrentados, principalmente financeiros, deu certo: sua existência permitiu o escoamento da produção de várias colônias agrícolas que se situavam  ao longo de todo o nordeste do estado, entre a capital, Belém, e seu ponto final, a cidade de Bragança. Entre elas nasceram, com a ferrovia, todo um conjunto de municípios que hoje existem nessa área do Pará: Igarapé-Açu, Benevides, Castanhal, Tracuateua, Capanema, Peixe-Boi, Mirasselvas.

Desativada em 1964 pelo Ministério dos Transportes por ser deficitária – e por vingança do antigo ministro do transportes, Juarez Távora, segundo registra a memória dos trabalhadores e dos usuários da ferrovia, o fato é que de todo um belo complexo ferroviário existente pouca coisa sobrou. E é esse o trabalho que eu e meus colegas de DPHAC/SECULT realizamos no momento: identificar tudo o que sobou da antiga ferrovia.

Fizemos isso na volta à Belém, no sábado: entrada nos municípios por onde passou a ferrovia, à cata de vestígios. Tomada de fotos de pontes, restos de antigas estações, busca por moradores que ainda possuam fotos antigas da EFB. Com a última viagem, completamos mais um ciclo de pesquisas, e obtivemos mais fotos e uma melhor compreensão do papel da estrada no desenvolvimento econômico paraense. Agora é hora dos relatórios.

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Consegui uma série de fotos tanto do nordeste paraense quanto da Ilha do Marajó. Estou terminando uma seleção delas para mostrar a todos um pouco do lugar. Mas vocês podem ter uma palhinha do que eu vi…

Campo e igarapé em Mirasselvas. Antigo caminho da EFB. Foto do autor.

Campo alagado em Mirasselvas. Antigo caminho da EFB. Foto do autor.

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Tenho muito mais coisas para contar, mas calma, estou escrevendo que nem um doido os relatórios e trabalhos aqui do DPHAC, fora a fase final do semestre letivo – alunos em avaliação, orientandos terminando seus TCs. Mas ao longo da semana atualizo algumas notas sobre blogs muito bons que eu eu pude ver nos últimos dias.

Publicado em: on 1 01UTC Dezembro 01UTC 2008 at 6:02 am Deixe um comentário
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