Andarilhagens

Retornei sábado de outra viagem, desta vez para o município de Bragança, cerca de 250 km distante de Belém.

Sexta e sábado na estrada. Na ida, participação, sexta-feira à noite, no lançamento do livro Trilhos, o caminho dos sonhos: memorial da estrada de ferro de Bragança, escrito pelo pesquisador José Leôncio Ferreira de Siqueira. Organizador de um belo trabalho, ele passou os últimos três anos pesquisando, por conta própria, a história da antiga Estrada de Ferro de Bragança, linha que unificou todo o nordeste paraense entre 1908 e 1964 e que foi a grande responsável, junto das colônias agrícolas fundadas nesta área do estado, desde a década de 1870.

Trata-se de uma história muito menos conhecida que a da Madeira-Mamoré, em grande medida porque, enquanto a esta teve uma história extramamente trágica, a EFB, apesar de todos os problemas, enfrentados, principalmente financeiros, deu certo: sua existência permitiu o escoamento da produção de várias colônias agrícolas que se situavam  ao longo de todo o nordeste do estado, entre a capital, Belém, e seu ponto final, a cidade de Bragança. Entre elas nasceram, com a ferrovia, todo um conjunto de municípios que hoje existem nessa área do Pará: Igarapé-Açu, Benevides, Castanhal, Tracuateua, Capanema, Peixe-Boi, Mirasselvas.

Desativada em 1964 pelo Ministério dos Transportes por ser deficitária – e por vingança do antigo ministro do transportes, Juarez Távora, segundo registra a memória dos trabalhadores e dos usuários da ferrovia, o fato é que de todo um belo complexo ferroviário existente pouca coisa sobrou. E é esse o trabalho que eu e meus colegas de DPHAC/SECULT realizamos no momento: identificar tudo o que sobou da antiga ferrovia.

Fizemos isso na volta à Belém, no sábado: entrada nos municípios por onde passou a ferrovia, à cata de vestígios. Tomada de fotos de pontes, restos de antigas estações, busca por moradores que ainda possuam fotos antigas da EFB. Com a última viagem, completamos mais um ciclo de pesquisas, e obtivemos mais fotos e uma melhor compreensão do papel da estrada no desenvolvimento econômico paraense. Agora é hora dos relatórios.

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Consegui uma série de fotos tanto do nordeste paraense quanto da Ilha do Marajó. Estou terminando uma seleção delas para mostrar a todos um pouco do lugar. Mas vocês podem ter uma palhinha do que eu vi…

Campo e igarapé em Mirasselvas. Antigo caminho da EFB. Foto do autor.

Campo alagado em Mirasselvas. Antigo caminho da EFB. Foto do autor.

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Tenho muito mais coisas para contar, mas calma, estou escrevendo que nem um doido os relatórios e trabalhos aqui do DPHAC, fora a fase final do semestre letivo – alunos em avaliação, orientandos terminando seus TCs. Mas ao longo da semana atualizo algumas notas sobre blogs muito bons que eu eu pude ver nos últimos dias.

Publicado em: on 1 01UTC Dezembro 01UTC 2008 at 6:02 am Deixe um comentário
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De volta da Ilha do Marajó

Estou de volta da Ilha do Marajó. Mais precisamente, estive em Cachoeria do Arari, cidada natal do escritor Dalcídio Jurandir, cuja obra estou estudando no momento. Pude ver a casa em que ele viveu sua infância, ponto inicial de toda a sua longa narrativa: dez livro sobre a vida no extremo norte brasileiro, dos campos marajoaras à Belém do Pará.

Nessa visita pude ver de perto os campos. Já os conhecia em seu período de cheias, quando ficam verdes e completamente alagados. Nesse período de cheias, que se estende em geral de dezembro/janeiro até julho, as chuvas são constantes, podendo durar dias inteiros, formando grandes terrenos alagados, chamados de tesos. Período difícil, de aumento do volume de rios já grandes, e do surgimento de rios sazonais bastante volumosos.

Agora, no entanto, pude ver os campos secos. Os campos cheios e seus tesos são vastos, mas agora, sem a água, a vastidão atinge proporções monumentais. A paisagem é uma vasta combinação de mato verde-amarelado, árvores verde-escuras, céu branco-azulado e rios de águas barrentas e densas, sol e espaços abertos, aves, búfalos, bois, vacas. O Marajó oferece isso: pode-se passar pelo mesmo espaço, pelo mesmo campo, mas o lugar, ao longo do ano, não é o mesmo: nessa variação de alagamentos e secas, as paisagens mudam completamente. E devemos entender aqui paisagem não como um mero “retrato” oferecido aos olhos, mas como a imagem de um complexo cultural, econômico, – vital, se quiserem – na qual a interação entre homens, animais, campos, cidades e rios muda completamente.

(Me irrito profundamente escrevendo essa pequena nota, porque ela não dá conta de descrever, de forma minimamente decente, as imagens guardadas pelos meus olhos, pelo meu cérebro. Frustração).

O que mais posso dizer? Eu, um migrante, quanto mais conheço a Amazônia, mais me espanto com esse contato com a vastidão existente no Brasil. Vastidão de campos mutantes, de espessas e extensas florestas diferentes – as ilhas não possuem as mesmas formas de plantas, nem a mesma disposição e interação de árvores que encontramos nas florestas de terra firme. Vastidão de rios os quais não vemos a margem oposta, e que desembocam na baía do Marajó, ganhando rumo para o oceano Atlântico: vastidão que desemboca em vastidão que desemboca em vastidão.

Essa vastidão não quer dizer, no entanto, vazio. A Amazônia não é vazia: do gado aos peixes, dos pássaros aos homens, existe um complexo de relações entre solo, chuva, ação humana, diversidade de grupos humanos, diversidade de grupos de animais que não podem ser reduzidos a qualquer idéia pré-concebida, qualquer teleologia, qualquer ideologia. Esse lugar vasto e complexo exige, penso, um esforço de pensamento tão vasto quanto ele, algo que possa apreendê-lo em sua diversidade, em suas diferenças inerentes e, por mais paradoxal que seja, na delicadeza de seu equilíbrio, ainda que as dimensões do território nos levem a pensar em uma ambiente bruto, rude, agreste e pouco sofisticado – como se a natureza (naturans ou naturata), fosse pouco sofisticadas.

Eu e a equipe de pesquisa registramos muitas fotos do Marajó. Algumas das imagens são particulares, e não configuram material de uso da pesquisa. Poderei colocar algumas delas aqui, futuramente.

Publicado em: on 23 23UTC Novembro 23UTC 2008 at 3:41 pm Deixe um comentário
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Uma nova proposta para compreender a Amazônia: entender suas cidades.

Essa proposta – excelente ao meu ver – foi apresentada por Ademir de Oliveira, secretário de Ciência e Tecnologia do estado do Amazonas, durante o encontro regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Oriximiná, no oeste paraense.

A reportagem é do Jornal da Ciência.

Comento o seguinte: existe uma compreensão errônea de que a Amazônia ainda é um vazio demográfico, e tecnológico. Claro, a região precisa ainda de muito investimento em formação científica, mas é um erro sério de avaliação acreditar que ela é despovoada – o que siginifica excluir 10.000 anos de ocupação humana na Amazônia -, ou que ela não participa do processo de globalização da informação, do capital e da tecnologia.

Mudando o foco de atenção para as cidadaes amazônicas, seus problemas, seu desenvolvimento e sua história, corrige-se a compreensão que temos da região, integrando tanto seus aspectos bio-ecológicos quanto sociais e humanos.

Aliás, sugiro a todos os leitores desse blog que, quando puderem, dirijam-se a algum estado da Amazônia e conehçam in loco o lugar, não apenas pela televisão. Andem de barco, desçam nos povoados ribeirinhos, entendam a complexidade da região. Somente vindo aqui – além de lendo muito, é claro – os visitantes, principalmente do sul do Brasil entenderão que os problemas da região não se resumem somente ao desmatamento. Aliás, o próprio desmatamento não é causa, é conseqüência da falta de um modelo de crescimento econômico nacional alternativo àquele implantado pela ditadura militar, desde os anos 1970.

Publicado em: on 8 08UTC Novembro 08UTC 2008 at 10:04 am Comentários (4)
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