Pensar e ensinar a História sem apelar para o “fim da História”… Alguém se habilita?

Não é tão difícil argumentar contra a idéia de um fim da História. Pode-se argumentar contra esta idéia de várias formas: apelar para os “fatos”, e transformar situações horripilantes como os atentados de 11 de setembro em uma “prova” da continuidade da História, na medida em que os ataques terroristas seriam (?) um indício de existência de antagonismos políticos, culturais e culturais ainda em choque, poderosos o suficiente para mostrar que nada sobre o futuro do mundo está decidido. Pode-se, também, recorrer a argumentos ideológicos; por exemplo: argumentar que a idéia de um fim da história é uma visão claramente de direita e pró-americana, criada por um professor da Universidade John Hopkins (ou será um agente da CIA, ou ainda do Pentágono?) e totalmente interessado em defender o “imperialismo” americano e a ideologia neo-liberal. É uma argumentação frágil e cheia de clichês, mas suficiente para convencer qualquer um que esteja filiado ao PSTU, ao PC do B ou que orbite nessa galáxia ideológica. Por fim, pode-se invocar a própria história: Cromwell, a fase do Terror revolucionário francês; Lenin, Stálin, os Nazis, Pol-Pot, Mao Tsé-Tung… A galeria de personagens que tentaram conformar seus países e povos a um mundo ideal, a uma “realidade perfeita” resultou em desastres mais do que reconhecidos.

As formas de contestação da idéia de um “fim da história”, sejam elas mais sofisticadas ou ideologicamente toscas, já são bem conhecidas e circulam bastante, até no senso comum. No entanto penso que isto não significa que tenhamos abandonado completamente uma concepção teleológica de história? Não me parece que nós tenhamos conseguido isso. Eu ficaria MUITO feliz se isso tivesse acontecido, mas não creio que o pretenso fim da história tenha banido tudo o que uma teleologia histórica trás consigo.

Estamos preparados para pensar a História sem uma teleologia, ou seja: estamos prontos para pensar um processo histórico sem que ele esteja atrelado necessariamente a um ponto final, a uma chegada, a uma meta a ser atingida, a um sentido a ser seguido?

Logo de início podemos perceber um grande paradoxo: a propaganda neo-liberal decretou, nos anos 1990 e 2000, o “fim das ideologias”, o “fim da história”, “o fim do comunismo”, o “fim das utopias”… No entanto, os próprios neo-liberais, historicamente, estão metido até o pescoço no buraco que aparentemente renegam: para decretar o fim da história, se colocaram eles próprios como o ponto final – ou seja, insidiosamente repuseram aquele aspecto que tanto criticaram nos comunistas: a existência de um sentido único para a história, de uma meta final para todo o processo histórico; para decretarem o fim das ideologias, precisam identificar a lógica de mercado completamente com o Real (o que é impossível!!!), o que, pela redução que isto implica, por si só se constitui em um artifício totalmente ideológico; decretaram o fim das utopias, mas a própria idéia de um futuro governado perenemente pelo livre mercado, pela livre concorrência, pela técnica como solução para todos os problemas que venham a aparecer, pela ilimitado crescimento econômico, tudo isso só pode ser concebido e sustentado se se crê, firmemente, que se chegou a um lugar nunca antes ocupado pelo Homem, a uma situação ideal, a um melhor dos mundos possíveis… Ou que se ainda não chegou lá, mas estamos em via de consegui-lo, desde que se façam reformas culturais em populações inteiras, modificações ambientais de alcance gigantesco, e mais alguns ajustes pelas armas, se necessário. Mas tudo isto não é,ainda, perseguir uma utopia?

Um dos nossos principais desafios com historiadores-professores consiste em pensar a pesquisa e o ensino de história sem cair nas armadilhas das filosofias da história. As conseqüências disto são sérias, uma vez que isto implica na renúncia tanto da arrogância dos neo-liberais e de seu autoproclamado fim da história, que concebem o ensino como um território puramente técnico e estratégico do ponto de vista da produção, submetendo os questionamentos quanto à currículos escolares, posturas dos professores, reprovações e insucessos escolares e debates sobre qualidade escolar à uma pura lógica de prestação de serviço (concorrência = cliente satisfeito com maiores opções de consumo de bens e serviços educacionais); mas implica, igualmente, no abandono completo do marxismo e de seus subprodutos: a tentativa de produção de uma sociedade absolutamente disciplinar, como forma de concretização de uma utopia de sociedade ideal, realizada, quase sempre, por meio da violência física e simbólica; o messianismo implícito em um fim da História através da via revolucionária; a incapacidade de convivência com a democracia; a incapacidade de lidar com a pluralidade.

Mas estamos prontos para isso? Senão vejamos: abandonar a idéia de um “fim da história” significa, de imediato, a descrença em qualquer concepção de progresso histórico como guia imanente de toda a humanidade. Da mesma forma, isto implica no mais profundo ceticismo em relação à idéia de que existem “estágios” a serem cumpridos pelas diferentes populações do planeta, rumo a algum fim – capitalismo liberal democrático, socialismo, comunismo etc., etc. Ou seja: por esta perspectiva, devemos aceitar o fato de que não há um sentido para a evolução humana, mas múltiplas formas de culturas humanas que existem no tempo, e que por uma série de fatores históricos, deixam de existir de uma determinada forma, em dado momento, se transformando em outra. Não falamos mais em um processo único e inelutável, válido para toda a humanidade, mas em vários povos, com vários processos históricos e várias memórias sociais coexistindo, se interpenetrando, se influenciando, constituindo suas próprias temporalidades e seus próprios, devires.

O abandono de uma teleologia histórica significa também o reconhecimento da necessidade imediata de se conceber a história como um saber experimental, capaz de propor questões e elaborar respostas possíveis para elas, bem como estabelecer diretrizes para ações que sejam conseqüentes e radicalmente compromissadas com a democracia.

Tomemos, por exemplo, um problema bastante polêmico: ensinar sobre a história dos índios no Brasil e sobre todos os conflitos políticos e culturais que envolvem os povos indígenas. Como contar essa história em sala de aula? Vamos manter o discurso da vitimização dos povos indígenas – o índio massacrado, o índio aculturado, o índio que sempre foi vítima passiva dos colonizadores? (aliás: existe “o” índio? Ou os índios?) Ou vamos nos preparar para contarmos outra história, mais difícil de ser explicada: que a história da destruição das populações indígenas é também a história da apropriação das terras no Brasil? Ques as populações indígenas não foram apenas sujeitos passivos e vitimizados, mas que souberam, em vários momentos da história do Brasil, guerrear, formar alianças, desenvolver estratégias de resistência (por vezes violenta) aos colonizadores, mas também de negociação para com estes? Aliás, que tipo de história os próprios povos indígenas construíram? E como uma cultura “branca”, ela mesma miscigenada (aliás como qualquer cultura!) transacionou com as diversas culturas indígenas? Por fim, o que os povos indígenas estão fazendo de seu próprio destino? Quais as experiências sociais, econômicas, culturais que eles estão gestando? Como o estado brasileiro se relaciona com elas? E que novos conflitos ainda não foram resolvidos, ou mesmo estão sendo gestados?

Propor essas perguntas e pensar em respostas para elas pressupõe não responder com ideologia, mas com leitura, estudo, pesquisa, abandono de idéias feitas. No entanto, tentar entendê-las, buscar respostas e mesmo não se satisfazer com elas é infinitamente mais importante e conseqüente, para nós e para os nossos alunos, do que simplesmente tagarelar sobre a crença segundo a qual o desaparecimento dos povos indígenas é conseqüência “lógica” de um “progresso” histórico – crença que nada mais é do que uma receita para um genocídio, – ou manter um discurso militante sobre a vitimização indígena, o que revela, na verdade, ignorância, falta de capacidade de pensar e principalmente autoritarismo, na medida em que relegar um indivíduo ou grupo ao eterno papel de vítima equivale a reconhecer que estes não são capazes de agir, pensar e propor alternativas para a sua condição, por conta própria.

No exemplo dado, claro, não temos nenhuma resposta pronta para oferecer. Óbvio que os professores precisam pensar a melhora abordagem, do ponto de vista dos materiais didáticos e da forma de abordar o tema, considerando as devidas séries e faixar etárias dos alunos. Logo, impõe-se a necessidade de se buscar textos, leituras, informações sobre experiências realizadas com outros povos e países. Envolve trabalho, escrita, leitura. E aí está, creio, o aspecto mais importante do abandono da idéia de “fim da história”: na medida em que não temos mais a certeza e a obrigação de dirigir o futuro a um fim abstrato, utópico, somos obrigados a pensar – algo difícil, lento, doloroso por vezes, e que pressupõe disciplina, ciência, rigor, liberdade. Algo que nossas agendas, à esquerda ou à direita, não nos têm propiciado.

Por fim, creio que o abandono da idéia de “fim da história” nos possibilita rever a relação entre a construção do conhecimento histórico e a produção da democracia no Brasil. Isto porque a diversidade de conflitos existentes na sociedade brasileira, suas desigualdades econômicas, políticas, culturais, educacionais (sem contar a profunda ignorância que, em geral, constata-se em cada uma das regiões brasileiras, em relação às outras, o que é dramático para áreas como a Amazônia), mas também suas potencialidades, singularidades exige o reconhecimento da diversidade de composição populacional, variações culturais e processos econômicos diferenciados existentes no país. A própria história brasileira ainda não ganhou seus devidos estudos comparativos, e ainda estamos criando um grande inventário histórico de nossos conflitos, de nossos problemas não resolvidos.

Diante desse quadro de problemas, rigorosamente nenhum deles, da questão indígena à complexidade política dos problemas agrários, da irresolução de projetos econômicos na Amazônia à violência das grandes cidades, podem ser resolvidos com fórmulas pré-concebidas fundamentadas na pretensa necessidade de se atingir “níveis de civilidade” ainda não conquistados, ou na quimérica “redenção” de todos os explorados pela via revolucionária – até porque nada irá redimir os escravos negros ou indígenas que aqui morreram, as vítimas da violência no campo ou nas cidades; não vamos trazê-los de volta, e para seus descendentes, será muito melhor pensar em termos de justiça do que de redenção.

Estamos prontos para pararmos de ensinar nossos alunos sobre o que a história deveria ser e para onde ela deveria ir? Estamos prontos para pararmos de renunciar ao nosso próprio tempo?