Em tempo: textos de Paulo Ghiraldelli Jr. sobre política e educação

Sobre a qualidade do ensino no Brasil e no que se transformou a direita brasileira, vale muito a pena ler os textos do Paulo Ghiraldelli Jr, basta clicar nos links. Aliás, fica a recomendação para ler todos os blogs do Ghiraldelli. Futuramente, links na barra ao lado, mas vocês podem começar pelo:

http://ghiraldelli.wordpress.com/

Publicado em:  on 18 18UTC Setembro 18UTC 2008 at 1:15 am Deixe um comentário
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Diogo Mainardi e um novo esporte: saltos antropológicos ornamentais

Atualizado em (03/09/2008)

Na última revista Veja (edição 2075, ano 41, nº 34, 27 de agosto de 2008) Diogo Mainardi traçou uma análise dos problemas sociais brasileiros estabelecendo uma analogia entre o fracasso de nossos atletas e o de nossa educação. Operação arriscada essa de associar a “poltronice dos brasileiros em geral” à “poltronice de nossos atletas”, de tentar entender a relação entre “o fracasso de nossos esportistas” com “o nosso fracasso como país”… E o próprio autor sabia dos riscos:

É o que analisarei a partir de agora, postado a frente do computador, com minha malha elástica dégradeé, dando uma rápida pirueta antropológica, seguida de dois parafusos sociológicos e meia dúzia de cambalhotas etnológicas, com grande probabilidade de repetir o feito de Diego Hypólito e aterrissar bisonhamente com o traseiro no tablado.

Ninguém pode deixar de dizer que Diogo Mainardi é previdente, mas sinto que ele errou ao escolher fazer suas acrobacias em um tablado… Antes de vestir uma malha elástica “dégradeé”, Mainardi deveria ter usado uma sunga, pois seus os saltos, suas piruetas e seus parafusos são antes mais próximos dos saltos ornamentais do que da ginástica de solo, pois é a isso que se resume seu texto: muito ornamento, piruetas para encantar o leitor incauto, e praticamente nada em termos de validade de análise.

Em primeiro lugar essa analogia entre o fracasso de Diego Hypólito e o fracasso brasileiro é uma falácia. O tombo de Diego Hypólito nada mais é do que um tombo, uma queda, um despiste, um salto mal-calculado. Nada mais. Não há nenhuma “razão profunda”, nenhum “caráter nacional”, nenhum elemento étnico, nada, nada, nada. Há apenas um tombo – e uma ridícula “forçada de barra” de Diogo Mainardi. Se isso fosse verdade, como interpretar a queda da ginasta Fei Cheng, franca favorita à medalha de ouro? Uma alegoria da fragilidade do crescimento chinês? E o que diríamos do corredor Liu Xiang – grande herói esportivo do país – que sequer consegui largar para os 110 metros com barreiras? Deveríamos ver esse fracasso como uma expressão da politica chinesa, criadora de um grande desenvolvimento econômico, mas comprometido pela falta de liberdade, inclusive de imprensa? A derrota do time feminino de voleibol dos EUA é o sintoma da decadência do império americano? E a vitória do time masculino dos EUA no volei, é sinal da renovação política representada por Barack Obama? Francamente há que se ter muita imaginação e um péssimo conhecimento de esporte para se fazer analogias como as perpetradas por Diogo Mainardi.

No máximo, poder-se-ia criticar o COB e os atletas e seus técnicos pelo pouco preparo psicológico. Mas isto é questão de preparação, não de “temperamento de rebanho”, como nosso jornalista procura inferir.

Sobra, então, o argumento segundo o qual seria esse “temperamento de rebanho” dos brasileiros, educados por uma escola lamentável a viver em uma sociedade autoritária, baseada na “repulsa por idéias discordandes”, pelo conchavo e pelo “parasitismo estatal”. Mainardi cita a reportagem da revista Veja, de 20/08/2008, que indica que, apesar dos índices horríveis de nossos estudantes em testes internacionais de aproveitamento escolar, tanto os pais, os alunos quanto os professores aprovam o modelo escolar existente.

Vejamos, mais uma vez, o que diz Diogo Mainardi:

O Brasil fracassa no esporte pelo mesmo motivo porque fracassa como país: temos uma sociedade acovardada, fujona, avessa à luta. Tudo aqui é feito para desestimular a disputa, para reprimir o desafio pessoal, para amolecer o caráter. (…) Esse nosso espírito de rebanho inibe qualquer forma de atrito, qualquer tipo de inconformismo, qualquer espécie de enfrentamento. Quando temos de competir, afinamos. (…)

Legal! Tantas piruetas antropológicas, tantos malabarismos verbais, para chegarmos a um sociologismo a lá Paulo Prado (aliás citado por Mainardi em outros artigos seus)? Tudo isso para reduzir o problema ao “caráter nacional” submisso, autoritário, anti-liberal brasileiro? O fracasso do atleta é o fracasso de nossa educação, que não produz pessoas de fibra, capazes de concorrer no mundo contemporâneo? Por que tantos saltos de pensamento, porque tantas firulas se a resposta da “antropologia” e da “sociologia” de Diogo Mainardi já têm as respostas – a causa do fracasso do país somos nós mesmos?

Diogo Mainardi é interessante quando faz um trabalho de “detetive”, buscando conexões entre figuras do governo e negócios escusos. Também é um excelente tradutor, e devemos à ele a tradução de As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. No entanto, sua “ciência social” não passa de uma atualização de autores como Paulo Prado – ele próprio muito ruim como analista da sociedade brasileiro, já que a reduzia a uma mistura muito de raças muito mal caldeada, o que redundaria, em sua opinião, em uma sociedade de cidadãos preguiçosos, francamente anti-liberal e incapaz de um progresso decente – ou, no máximo, um Euclides da Cunha com o mesmo pessimismo, com a mesma crença em uma sociedade atavicamente atrasada, anti-liberal e anti-progressista, mas sem o racismo desses autores aqui aludidos. Diogo Mainardi não diz a razão de nosso temperamento de rebanho. Não precisa: como todo temperamento, ele é inato. Não temos defesa nem alternativa quando, historicamente, somos dotados de uma essência tão ruim. Nossa condenação já está dada de antemão.

E já que está tudo decidido, já que eu, como brasileiro, já estou explicado, posso me dar ao luxo de parar de ler as interpretações antropológicas de Diogo Mainardi…

Publicado em:  on 27 27UTC Agosto 27UTC 2008 at 3:23 am Comentários (2)
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