… o historiador concedeu uma bela entrevista sobre sua pesquisa ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Serbin pesquisou a relação entre a Igreja e a Ditadura militar no Brasil, cujo resultado pode ser conferido no livro Diálogos na Sombra, publicado pela Companhia das Letras.
Justiça reconhece Carlos Brilhante Ustra como torturador
(Direto do blog de Pedro Dória, via NPTO)
Carlos Brilhante Ustra, coronel reformado do exército e membro do antigo DOI-CODI, já foi beneficiado pela lei de Anistia. No entanto, o Tribunal de Justiça de São Paulo o reconheceu como torturador.
O objetivo não é necessariamente levar Ustra para a cadeia, mas apontá-lo como alguém que praticou atos terríveis – torturar uma mulher grávida – e comandar uma máquina de perseguição à opositores da ditadura militar, a pretexto de “caçar terroristas”.
O esforço é válido. Mesmo que nenhum agente do DOI-CODI vá para a cadeia, o simples fato de fazer esse país se confrontar com o seu passado já é algo benéfico, talvez mesmo profilático para que todo esse ressentimento latente acabe de uma vez.
Engana-se quem acha que a ditadura está esquecida e que as dores foram sanadas. Se houve todo uma espécie de romantização da figura dos guerrilheiros do Araguai – o que está longe de ser verdade – é impressionante a quantidade de blogs que aceita o argumento cínico e indecente segundo o qual a ditadura militar caçava terroristas. Primeiro porque (1) não é verdade: um simples exame das condições nas quais a guerrilha do Araguaia lutava (cf. MOURA, Clóvis, Diário da Guerrilha do Araguaia, ed. Alpha-Omega, 1979) para perceber que os guerrilheiros estavam em absurda desvantagem numérica, logística, de armamento, mesmo de avaliação das possibilidades reais de vitória contra o regime; chega a ser chocante, pela leitura do Diário, documento produzido pelos próprios guerrilheiros, como a fé na revolução comunista tornava obtusa a percepção das condições materiais da guerrilha; tratava-se de um grupo, inclusive, que não representava a totalidade dos pontos de vista das esquerdas do período – que, majoritariamente, não defendeu a luta armada. Agora, quem consome a propaganda da direita, tanto a da época quanto a atual, pensa que existia uma FARC no Araguaia, o que é ridículo.
Além disso (2) as outras ditaduras do continente fizeram ações contra guerrilhas e elas não conseguiram conter os seus grupos armados. Ou seja, não vale o argumento de que, se não fossem as ditaduras latino-americanas o continente teria mergulhado na revolução marxista-leninista. (3) A brutalidade das ditaduras – e podem generalizar: para nenhuma ditadura, de nenhum espectro ideológico – por princípio pode ser aceita. Tivemos uma ditadura de direita no Brasil. É ela que precisa ser investigada.
Isso significa defender a ortodoxia marxista-leninsta? Não, de modo algum. Mas não há argumento que impeça a justiça de apontar os participantes da tortura, das prisões arbitrárias, da repressão dos manifestantes de esquerda – da centro esquerda à extrema esquerda. E não é preciso demonizar a direita para sabermos o que aconteceu: basta abrirmos os arquivos oficiais, estudar a documentação, revirar os processos, deixar profissionais como os historiadores fazerem seu trabalho livremente. O que existir, aparecerá.
Pode-se, sem dúvida, ouvir aqueles que participaram dos acontecimentos, a favor da ditadura militar, e perceber o seu ponto de vista. Mas é ridículo achar que eles são a minoria, que eles não possuem acesso à grande imprensa. Jarbas Passarinho, por exemplo, expõe livremente seu ponto de vista a partir das colunas do jornal O liberal, de Belém, e nunca ninguém pensou e tomar sua palavra, ou proibí-lo de escrever por dizer claramente que a ação da ditadura foi necessária contra a guerrilha. Ou seja: é muito paranóico achar que a imprensa brasileira é “dominada por esquerdistas”. A internet com certeza não é. O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, O Liberal e a revista Veja podem ser tudo, menos esquerdistas. Que baboseira é essa?
No fim das contas, trata-se de mais uma tentativa de apagar a memória, de fazer uma história oficial da ditadura militar brasileira, a partir do ponto de vista das força armadas da época, mas agora “turbinada” por uma perspectiva completamente “neocon”. Que abram os arquivos, que se fale, de peito aberto, tudo o que se tem para falar, que se aponte o dedo para quem se deve apontar. Querem chamar a esquerda de terrorista? Dane-se, porque ela já foi tachada há muito tempo de terrorista. Mas que se aponte o dedo para os torturadores então. Que tudo seja às claras, como fez a justiça paulista.