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	<title>O(s) Fim(ns) da História &#187; Literatura norte-americana</title>
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		<title>O(s) Fim(ns) da História &#187; Literatura norte-americana</title>
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		<title>Mil vidas, qualquer vida.</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Oct 2008 10:10:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato A. de Oliveira Gimenes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura norte-americana]]></category>
		<category><![CDATA[Paul Auster]]></category>

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		<description><![CDATA[
Publicado originalmente no Afogado em Livros!!!
Qual a finalidade do texto literário? Entre tantas respostas possíveis, destaco uma: transformar o leitor em autor, ou seja, fazê-lo ultrapassar sua situação de consumidor de textos para produtor de poesia, de formas diferentes de percepção da vida diária, deslocando-o de seu estado atual; fazê-lo se agitar, se mover.
Não está [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ofimdahistoria.wordpress.com&blog=4414886&post=320&subd=ofimdahistoria&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><!-- 	 	 --></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Publicado originalmente no Afogado em Livros!!!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Qual a finalidade do texto literário? Entre tantas respostas possíveis, destaco uma: transformar o leitor em autor, ou seja, fazê-lo ultrapassar sua situação de consumidor de textos para produtor de poesia, de formas diferentes de percepção da vida diária, deslocando-o de seu estado atual; fazê-lo se agitar, se mover.</p>
<p style="text-align:justify;">Não está em causa se um texto literário necessariamente produz &#8220;novos&#8221; Garcia-Lorca, ou um novo Drummond ou outro Apollinaire &#8211; o que, aliás, é impossível: todos eles são únicos. O problema é outro: como isso que comumente atende pelo nome de &#8220;literatura&#8221; pode ajudar o leitor a adquirir a aptidão de recontar sua vida, narrar sua experiência, assumir seu destino como uma criação em primeira pessoa, descobrindo sua capacidade de dar sentido à sua especificidade? Quando isto acontece, para além (ou apesar?) de qualquer intenção beletrista, pode-se dizer que a literatura está viva e ajuda a produzir vida.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-320"></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Achei que meu pai fosse Deus</em> &#8211; e outras histórias verdadeiras da vida americana (Tradução de Pedro</p>
<div class="wp-caption alignright" style="width: 142px"><a href="http://blogs.universia.com.br/ofimdahistoria/files/2008/11/achei-que-meu-pai-fosse-deus.jpg"><img style="border:3px solid black;margin:2px;" src="http://blogs.universia.com.br/ofimdahistoria/files/2008/11/achei-que-meu-pai-fosse-deus.jpg" alt="Achei que meu pai fosse Deus" width="132" height="193" /></a><p class="wp-caption-text">Achei que meu pai fosse Deus</p></div>
<p style="text-align:justify;">Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2005), livro organizado pelo escritor norte-mericano Paul Auster oferece um conjunto de textos que formam uma espécie de país, uma América se quisermos, mas uma América que é construída por palavras e experiências. Esta América outra, desconhecida da maioria das pessoas, surge aqui em uma trama de pequenas histórias que, no limite, constroem também um outro terreno literário, no qual não faz mais nenhum sentido perguntar se estamos diante de uma &#8220;obra de arte&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Auster selecionou algumas das 4 mil histórias que recebeu por conta de um projeto que coordenou, em 1999, o National Story Project. A idéia era simples e surgiu por acaso: receber histórias escritas por pessoas que não são escritoras, mas que simplesmente quisessem contar coisas interessantes e verdadeiras a respeito de suas próprias vidas. Essas histórias foram selecionadas e lidas semanalmente durante o programa &#8220;Weekend All Things Considered&#8221; da National Public Radio &#8211; um pool que integra 680 emissoras de rádio dos EUA, algo semelhante à nossa Rádio Cultura.</p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 140px"><a href="http://blogs.universia.com.br/ofimdahistoria/files/2008/11/paulauster02.jpg"><img style="border:3px solid black;margin:2px;" src="http://blogs.universia.com.br/ofimdahistoria/files/2008/11/paulauster02.jpg" alt="Paul Auster" width="130" height="193" /></a><p class="wp-caption-text">Paul Auster</p></div>
<p style="text-align:justify;"><strong>Narrar</strong> &#8211; A rigor os textos não são literários, no sentido que normalmente se atribui ao texto com intensões artísticas. São pequenas histórias ora engraçadas, ora tristes, patéticas ou edificantes, que se constituem em conversas,desabafos, confissões. Histórias que, em síntese, são muito menos &#8220;comunicação&#8221; e &#8220;notícia&#8221;, mas partilha de emoções.</p>
<p style="text-align:justify;">Essas conversas relacionam-se sempre a assuntos contingenciais: animais, objetos, famílias, estranhos, guerras, slapstick (ou situações típicas de comédias pastelão), amor, morte, sonhos, meditações. Estes assuntos compõem as seções do livro, e no interior delas é possível partilhar dessas múltiplas emoções ao percorrermos cada uma das pequenas histórias, como se cada autor ofertasse, como pequeno presente, um pouco de si mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Em cada uma delas sobressai um comovente trabalho da narrativa, que é ao mesmo tempo um trabalho sobre si: ao contarem experiências simples, essas cento e vinte uma vidas que construíram o livro realizam o milagre de dar um sentido às suas trajetórias, vertendo em palavras situações dolorosas, fé, coincidências, encontros, culpas, amor. Ao narrarem suas vidas é possível experimentar e acompanhar como cada situação vivida por um dos autores se rebate em uma outra experiência de vida, no interior do livro e para fora dela, nas vidas dos leitores. Cada narrativa faz com que as experiências fluam, possibilitando a cada autor confrontar-se com seu passado, com sua memória, com seus próprios pequenos dramas. No fim, essas centenas de vidas que compuseram o livro e os programas semanais de rádio foram capazes de se confrontarem consigo mesmas, trazendo acontecimentos que caracterizam, no fundo, qualquer vida. Narrar, contar uma história, aqui, é antes se tornar cada vida singular, preenchida de significados, a partir de situações que podem ocorrer em milhões de vidas, em praticamente qualquer uma delas..</p>
<p style="text-align:justify;">Este não é um tema estranho à obra de Paul Auster. Ele aparece, por exemplo, nos roteiros que ele elaborou para os filmes Cortina de Fumaça (Smoke, 1995) e Sem Fôlego (Blue in the Face, 1995), ambos protagonizados por Harvey Keitel. Aqui, entretanto, o escritor cede lugar a uma multidão de autores, cada um deles colaborando com um pouco de vida.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Uma história</strong> &#8211; É particularmente tocante a história contada por Marc Mitchell, do Estado do Alabama. Sua narrativa, intitulada &#8220;A menina nova&#8221;, conta como ele e uma amiga, ainda muito crianças, reproduziram o preconceito contra negros praticado por seus pais. As duas crianças, em um ato de crueldade pura, expulsam do seu convívio uma menininha negra recém-chegada à vizinhança. O próprio autor não soube porque ele a expulsara. É assim que ele conclui sua história:</p>
<p style="padding-left:30px;text-align:justify;">Isso aconteceu há vinte anos, mas ainda penso naquela tarde quase todos os dias. Nunca mais falei com Allison depois que sua família saiu da rua Prospect, mas espero que ela pense na garotinha também. E espero mais do que qualquer outra coisa que a menina e sua mãe tenham me esquecido, mas sei que isso não é possível&#8221;. (págs. 161-2)</p>
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	</item>
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		<title>Bartleby e a morte da memória</title>
		<link>http://ofimdahistoria.wordpress.com/2008/10/24/bartleby-e-a-morte-da-memoria/</link>
		<comments>http://ofimdahistoria.wordpress.com/2008/10/24/bartleby-e-a-morte-da-memoria/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 24 Oct 2008 15:29:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato A. de Oliveira Gimenes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Herman Melville]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura e História]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura norte-americana]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Herman Melville (1819-1891) sempre será lembrado por seu monumental Moby Dick (1851). No entanto, sua obra possui ainda outro trabalho magnífico, Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street, publicado em 1853. Um trabalho menor em tamanho, mas tão comovente quanto a luta de Ahab contra a baleia branca, contra si mesmo e sua mortal [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ofimdahistoria.wordpress.com&blog=4414886&post=305&subd=ofimdahistoria&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><div class="wp-caption alignleft" style="width: 107px"><a href="http://blogs.universia.com.br/ofimdahistoria/files/2008/11/melville.thumbnail.jpg"><img src="http://blogs.universia.com.br/ofimdahistoria/files/2008/11/melville.thumbnail.jpg" alt="Herman Melville (1819-1891)" width="97" height="128" /></a><p class="wp-caption-text">Herman Melville (1819-1891)</p></div>
<p style="text-align:justify;">Herman Melville (1819-1891) sempre será lembrado por seu monumental Moby Dick (1851). No entanto, sua obra possui ainda outro trabalho magnífico, <em>Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street</em>, publicado em 1853. Um trabalho menor em tamanho, mas tão comovente quanto a luta de Ahab contra a baleia branca, contra si mesmo e sua mortal obstinação.</p>
<p style="text-align:justify;">Jorge Luís Borges tinha este livro como um dos melhores da literatura universal. Além de Borges, Gilles Deleuze – amante declarado da literatura norte-americana – ficou encantado por este escrito, ao ponto de lhe dedicar um ensaio chamado Bartleby ou a fórmula. Para Deleuze, a “fórmula” de Bartleby é a fórmula da recusa perfeita e do estabelecimento da liberdade, expressa na famosa frase “prefiro não fazer”, tantas vezes ditas pelo personagem Bartleby.<span id="more-305"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Mas aqui estamos nos adiantando&#8230; Para que possamos nos situar, Bartleby, o escriturário, tem por narrador principal a personagem de um advogado que podemos qualificar com medíocre, no sentido exato da palavra: bem sucedido do ponto de vista financeiro, optou por viver, em suas próprias palavras, “com o mínimo de preocupação possível”, sem almejar qualquer maior destaque  seja nos casos dos quais se ocupa, seja em suas preocupações cotidianas, que não vão além dos andamentos dos negócios no escritório, ou em seus protestos (moderados) contra o governo por ter extinguido um cargo a qual ele ocupava e pelo qual ganhava um bom dinheiro. Seus funcionários, por sua vez, só fazem intensificar o clima opressivo e monótono do escritório: Turkey (“Peru”), de aproximadamente 60 anos, estabanado, de temperamento que variava da afabilidade matinal ao mau-humor vespertino; Nippers (“Alicate”), jovem de 25 anos “vítima de dois poderes perversos: ambição e indigestão”(pg. 22), também irritadiço, mau-humorado, confuso; e Ginger Nut (“noz de gengibre”), menino de doze anos “aprendiz de Direito, mensageiro e faxineiro” que trabalhava para o advogado.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo muda, no entanto, quando um novo escriturário, Bartleby, passa a trabalhar no escritório. Extremamente quieto e compenetrado em seu serviço, “palidamente limpo, tristemente respeitável e incuravelmente pobre!” (pg. 29), Bartleby realiza com dedicação suas tarefas diárias, até um momento no qual, sem motivo, se recusa a realizar algum trabalho, com a seguinte justificativa, sempre dita de maneira muito educada:</p>
<p style="text-align:justify;padding-left:30px;">
<blockquote><p>- Prefiro não fazer isto.</p></blockquote>
<p style="text-align:justify;">
<p>Ao se recusar a fazer as tarefas diárias, Bartleby cria uma situação totalmente inusitada, que vem abalar por completo a estabilidade daquele mundo fechado do escritório no qual trabalha. Isto porque sua recusa em realizar determinadas tarefas não possui nenhuma razão ou justificativa aparente. Além disso, tanto aos funcionários do escritório quanto ao narrador principal é impossível entender tanto os motivos para Bartleby agir da forma que age bem como suas motivações e mesmo seu estado emocional: Bartleby é completamente “opaco”, constituindo-se em um personagem enigmático, tanto para o narrador quanto para os leitores. E é esta “opacidade” de Bartleby, em grande medida, que fornece a sustentação da narrativa, tanto pela imprevisibilidade do curso da história – visto que, durante a leitura, nunca se sabe o que a personagem fará – bem como pelo humor, já que é hilariante ver como a atitude de Bartleby subverte completamente a ordem do escritório e da relação dos personagens entre si.</p>
<p style="text-align:justify;">É esta recusa polida, suave, mas radical de Bartleby que, para Deleuze, é a fórmula da contestação perfeita, pois não se trata mais de exercer o “livre arbítrio” a partir de uma dada liberdade de escolha. Aliás, Deleuze é enfático neste é o ponto: não há livre arbítrio, uma vez que a escolha por objetos ou situações preexistente, e que condicionam ou mesmo pré-determinam uma escolha já direcionam o que o sujeito deve fazer – o que equivale dizer que na “liberdade de escolha”, no fim das contas, não há liberdade.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao “preferir não fazer”, Bartleby anula qualquer possibilidade de escolha pré-determinada. Bartleby escolhe não fazer, o que dinamita a idéia de “liberdade de escolha” entre pares binários de objetos ou situações (prefiro isto a aquilo, prefiro estar em x a estar em y) e a própria idéia de livre arbítrio: preferir não significa recusar os limites para a própria escolha, e escolher criar as situações para que a futura escolha possa ocorrer, o que implica em uma liberdade fundamental e irredutível a quaisquer coações e pré-determinações.</p>
<p style="text-align:justify;">Sem dúvida a leitura que Deleuze faz da novela é fascinante, e plenamente válida. Do ponto de vista lógico, a ética de Bartleby faz implodir toda e qualquer ilusão existente sobre o livre-arbítrio. No entanto é esta ética suficiente para compreender Bartleby? É isto que podemos estabelecer como ponto forte da narrativa: a demonstração de uma ética da recusa radical de todas as possibilidades existentes em prol de uma escolha fundamental, sem coações, personificada em Bartleby?</p>
<p style="text-align:justify;">Mas penso que, fiel à sua atitude de ler uma obra sem se preocupar demasiadamente com a sua coerência interna, desfazendo-a ao para colher uma questão filosófica, e sem ligar muito para a “organicidade” de um livro, Deleuze cunha da frase dita por Bartleby um problema que lhe é interessante e importante, do ponto de vista filosófico. E obviamente o problema da escolha e da liberdade de escolha é importante, e plenamente possível de ser pensado a partir da leitura de Bartleby, o escriturário. Mas não creio que a “fórmula” percebida por Deleuze encerre, em si, o problema fundamental do livro. Aliás, a recusa radical de Bartleby por todas as situações pré-determinadas, seu “escolher não fazer”, não termina em libertação, mas em destruição e morte. Aliás, o aspecto mais inquietante da narrativa é este: quanto mais Bartleby “prefere não”, mais ele definha, mas ele se paralisa, menos ele age.</p>
<p style="text-align:justify;">Bartleby cada vez mais intensifica a sua recusa, deixando gradativamente de&#8230; viver! Alimenta-se cada vez menos, torna-se cada vez mais magro e cadavérico, sem no entanto deixar de ir ao escritório. Aliás, a passividade de Bartleby é tão grande que ele passa a viver no escritório! Página a página, vemos o desenrolar de uma atitude cada vez mais radical de passividade e imobilidade, ao ponto da personagem não mais trabalhar, não mais escrever, e praticamente não mais falar, a não ser dar respostas que se limitam sempre a um “prefiro não”.</p>
<p style="text-align:justify;">Como dissemos, o narrador da história é o advogado dono do escritório no qual Bartleby habita. É ele quem conta todas as reações que a radical recusa de Bartleby suscita nele e nos demais  funcionários. Em geral, essas reações vão da profunda piedade ao ódio, passando pela melancolia, pela irritação, pelo temor, pela recusa à atitude de Bartleby. Em todos esses sentimentos, uma sensação é soberana: a de perplexidade diante de um acontecimento puro. Sim, um acontecimento puro na medida em que Bartleby não possui uma origem, uma história, um contexto, um tempo: ele apareceu na narrativa, veio ao escritório respondendo a um anúncio de emprego e depois apenas exerceu sua sensacional recusa.</p>
<p style="text-align:justify;">Esta perplexidade é tanto a do narrador quanto a do leitor, que o tempo todo experimenta e compartilha a angústia de não saber como lidar com esse amável e puro monumento à acedia: a insistência de Bartleby em se recusar a fazer qualquer coisa demole todas todas as estratégias e elide qualquer ato violento por parte de seu empregador, anula toda tentativa de entendimento e de interpretação que o advogado e os outros funcionários fazem sobre sua pessoa. Bartleby, em sua opacidade absoluta, oferece uma resistência passiva de enorme eficácia, na medida em que anula todas as atitudes que lhe poderiam ser contrárias.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas o que torna a perplexidade (principalmente do leitor) ainda maior é o fato de que não sabemos claramente contra o que Bartleby resiste. É contra o trabalho? Contra Wall Street? Trata-se apenas de um maluco qualquer?</p>
<p style="text-align:justify;">Não sabemos. Bartleby, o escriturário não pode ser encaixado em uma análise simples, nem do ponto de vista político, nem mesmo filosófico. Não se pode simplesmente dizer que Bartleby é um “resistente ao sistema”, uma estranha espécie de anarquista. Claro, há algo de político na narrativa, na medida em que o personagem, próximo do final do romance, é preso e fica detido em uma prisão. Lá, sua acedia atinge o ápice e, finalmente, Bartleby morre.</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse momento da história, ocorre um diálogo muito estranho, entre o advogado que, condoído, vista Bartleby na prisão, e o personagem central. Aqui um trecho deste diálogo:</p>
<p style="padding-left:30px;text-align:justify;">
<blockquote>
<p style="text-align:justify;">Por não estar preso sob qualquer acusação grave e mostrar-se completamente tranqüilo e inofensivo, Bartleby tinha permissão para andar livremente pela prisão e especialmente nos pátios fechados com grama. Foi onde o encontrei sozinho no mais silencioso dos pátios, o rosto voltado para um grande muro, enquanto ao redor, das estreitas brechas das janelas da prisão, penser ter visto observarem-no os olhos de assassinos e ladrões.<br />
- Bartleby!<br />
- Eu conheço você – disse ele, sem virar-se para olhar – e não quero lhe dizer nada.<br />
- Não fui eu quem o trouxe para cá, Bartleby – falei, profundamente ferido por sua suspeita implícita. &#8211; E, para você, este não deve ser um lugar tão vil. Ficar aqui não é vergonhoso para você. Veja, não é um lugar tão triste como se pode imaginar. Olhe, aqui está o céu, e aqui, o gramado.<br />
- Eu sei onde estou – ele respondeu. Mas nada mais disse, então o deixei. (pgs. 89-90)</p></blockquote>
<p style="text-align:justify;">O trecho é interessante, pois revela que Bartleby possui uma total consciência de seus atos. “Eu sei onde eu estou” é uma frase reveladora, aliás, um dos únicos momentos em que se entender algo que ocorre “dentro” do personagem, em que vislumbramos algo do que ela sente.</p>
<p style="text-align:justify;">Chegamos então ao ápice da dúvida, da perplexidade, mas também da maravilha e da piedade que este personagem desperta. Penso, mesmo, que é impossível não se apiedar de Bartleby, e talvez neste jogo de oscilação entre a piedade e a perplexidade causada por essa diferença absoluta  de um modo de ser no mundo, expressa pelo personagem título e sua recusa que não lhe permite a  convivência, ou mesmo um simples encaixe  em ordem estabelecida que resida o segredo da “mágica” dessa narrativa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao retomarmos, por exemplo, ao diálogo citado à pouco, somente se o leitor for   completamente insensível (ou um tanto psicopata) para não se sentir tocado pela gigantesca solidão do personagem, bem como notar a profunda crueldade do discurso do advogado – Bartleby está em uma prisão, reclamando, de sua forma, por estar preso, e tudo o que o seu afável visitante tem a dizer é que a prisão não é tão ruim assim, já que ele está em um pátio aberto, com o céu e a grama&#8230; O próprio advogado expressou, mais de uma vez, o mesmo sentimento para com o escriturário. Mas esta piedade não foi suficiente para abrandar, ou mesmo fazer com que este pudesse entender Bartleby, que permanece um enigma por toda a história.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, esta frase “Eu sei onde eu estou” ganha ainda mais importância, pois ela expressa que o personagem está completamente cônscio de seu destino, de sua situação, e das conseqüências dos seus atos. Ele sabe onde sua recusa absoluta, sua radical liberdade em “preferir não fazer” &#8211; em uma expressão, sua recusa positiva – o levou. Mas também indica – ou melhor, denuncia – a total incapacidade de entendimento daqueles homens medíocres em entenderem algo estranho, inusitado, um ser de funcionamento e ritmo absolutamente diferentes de uma “normalidade”.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas esta denúncia da crueldade do homem medíocre, dessa dose de violência que existe em toda normalidade, qual é o sentido dela? Por que, afinal de contas, Bartleby apresenta essa acedia monumental?</p>
<p style="text-align:justify;">Escrita de forma retrospectiva, verdade como uma rememoração, o narrador relembra uma informação cuja procedência é quase tão obscura quanto à vida do próprio Bartleby. No entanto, de alguma forma, ela ajuda a entendermos o sentido dessa acedia:</p>
<p style="text-align:justify;">
<blockquote>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;) Mas antes de me despedir do leitor, deixe-me dizer que, se esta pequena narrativa interessou-o suficientemente para despertar curiosidade sobre quem era Bartleby e que tipo de vida ele levava antes de o presente narrador conhecê-lo, posso apenas responder que partilho completamente dessa curiosidade, mas sou totalmente incapaz de satisfazê-la. Embora quanto a isso eu não saiba ao certo se devo divulgar um pequeno boato que chegou aos meus ouvidos alguns meses depois do falecimento do escriturário. Nunca pude verificar as fontes da história, portanto não posso dizer quão verdadeira ela é. Mas considerando que este relato vago não deixou de ter um estranho e sugestivo interesse para mim, embora triste, pode funcionar da mesma maneira com outras pessoas. Então vou mencioná-lo brevemente. O relato foi o seguinte: Bartleby havia sido funcionário na Seção de Cartas Extraviadas em Washington, da qual fora afastado repentinamente por causa de uma mudança na administração. Quando penso nesse boato, não posso expressar adequadamente as emoções que tomam conta de mim. Cartas extraviadas! Pense num homem cuja natureza e má-sorte  fizeram tender a uma pálida desesperança – pode qualquer trabalho parecer mais adequado para aumentar essa desesperança do que lidar continuamente com essas cartas extraviadas e classificá-las para as chamas? Pois elas são incineradas em abundância. Algumas vezes, o pálido funcionário encontra um anel dentro do papel dobrado – o dedo a que se destinava talvez, esteja apodrecendo debaixo da terra; uma nota bancária enviada em rápida caridade – aquele a quem iria aliviam já não come ou passa fome; perdão para aqueles que morreram em desespero; boas novas para os que morreram sem assistência em calamidades. Com mensagens de vida, essas cartas corriam para a morte. (pg. 96)</p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;">Então, aqui está: bem no último parágrafo, o narrador indica o que pode ter acontecido com Bartleby. Trabalhando na seção de cartas extraviadas, o que se observa é que ele pode ter sofrido com aquelas cartas sendo selecionadas para a incineração.</p>
<p style="text-align:justify;">No entanto, o que é assistir a morte daquelas cartas? Se tomarmos o final da narrativa como possível explicação, a acedia de Bartleby possui alguma coisa de grandioso e trágico, pois é a paralisia de um homem que foi confrontado com uma das mais terríveis e peculiares formas de morte que podem existir: a morte depois da morte, a morte dos sinais da presença dos homens na Terra e na história, a morte da memória. Bartleby, na eliminação daquela posta extraviada, aquelas cartas que não cumpriram o seu destino, que se perderam no caminho, ou por situações fortuitas, ou pela incompetência do entregar, não importa, todas aquelas cartas não eram apenas papel a ser queimado, mas memória a ser destruída. E Bartleby era um dos grandes agentes desta morte, uma vez que trabalhava justamente no setor de destruição de cartas.</p>
<p style="text-align:justify;">De alguma forma, Bartleby entendeu muito bem, por experiência, o que é arquitetar e experimentar um tipo radical de morte e de destruição, uma destruição profunda e radical. Morte da memória, morte do elo entre vivos e mortos, e morte de todas as coisas que poderiam consolar os vivos, ou ao menos testemunhar os encontros e desencontros, agruras e benesses de um tempo. Em face disso, “preferir não fazer” algo, de forma gentil, porém resoluta, parece ser uma atitude de recusa a pelo menos duas ilusões: (1) a de que a vida é plenamente regida por escolhas que estão sob poder dos indivíduos e de suas consciências; e (2) de que o mundo em construção no século XIX, com toda a sua força científica, com toda a sua tecnologia de comunicação guardava, em suas entranhas, essa possibilidade de destruição da memória, na incineração de todo aquele refugo de cartas que, por uma decisão técnica, tornava todas aquelas lembranças descartáveis.</p>
<p style="text-align:justify;">De alguma forma, Bartleby viu todo o potencial de destruição presente em nosso mundo moderno, então ainda dando os seus primeiros passos, mas que não tardaria a mostrar suas faces mais terríveis já no século XIX com a Guerra Civil Americana, ou no século XX, quando os regimes totalitários transformaram não mais cartas, mas pessoas em matéria a ser incinerada. Talvez Bartleby, o escriturário seja o primeiro aviso de que, no mundo administrado, no mundo impessoal das repartições, das funções bem divididas, das conquistas tecnológicas e de um potencial de enriquecimento jamais experimentados antes, também podia administrar a destruição, destroçar memória, criar uma situação na qual “nem os mortos estariam seguros” (Walter Benjamin). Sua acedia não é a propriamente a de um resistente ao sistema, mas a de alguém que se diferenciou da mediocridade e de sua segurança porque viu o quanto ela era ilusória.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas quanto o homem da vida comum, medíocre, pode suportar alguém que preferiu não seguir o seu curso este “curso normal”, que o recusou positivamente por não mais ter motivos para nele acreditar?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong> Um trecho:</strong> “Nada irrita tanto uma pessoa séria quanto uma resistência passiva. Se o indivíduo afrontado não for de um temperamento desumano, e o que resiste, perfeitamente inofensivo em sua passividade, então, nos melhores humores do primeiro, ele vai se esforçar caridosamente por interpretar com sua imaginação o que se mostra impossível de ser esclarecido por seu julgamento.” (pg. 40).</p>
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<p style="text-align:justify;">Publicado originalmente no blog <em>Afogado em Livros </em>em 05/10/2008, com o nome de &#8220;Bartleby, a recusa positiva e a morte da memória&#8221;.</p>
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			<media:title type="html">Renato A. de Oliveira Gimenes</media:title>
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			<media:title type="html">Herman Melville (1819-1891)</media:title>
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