Resposta da Viúva de Paulo Freire à Revista Veja (II)

Os seguintes aspectos da crítica de Nita Freire merecem ser destacados:

Li a matéria da revista Veja sobre o ensino. A preocupação que a revista manifesta com a qualidade do ensino é legítima, e a relação entre péssima qualidade de ensino, crescimento mais lento da economia e a produção de uma mão de obra com problemas sérios de qualificação existe, de fato. No entanto  a reportagem, assim como o seu “tom”, por assim dizer, permite entender que

a) Paulo Freire seria uma influência nefasta para o crescimento econômico do país – o que é uma falácia: o país não deixa de crescer porque existe o método Paulo Freire (método usado para a alfabetização de adultos, não para ensino de física nuclear ou para aplicações na bolsa…), mas sim porque a rede de ensino – leia-se Ministério da Educação, Secretarias de Educação estaduais e municipais, diretores, coordenadores pedagógicos, professores e pais/responsáveis simplesmente não conseguem entender que o ensino é extremamente desestimulante, pouco criativo, descolado da experiência do aluno, sem projeto, sem planejamento adequado do que se quer do aluno, sem objetivos claros, sem metas traçadas, pouco voltado para as ciências, no limite behaviorista, mecânico, imbecilizante, incapaz de oferecer uma formação conceitual científica e humanística decentes. Ou seja: tudo o que se criticava durante o regime militar, mas agora com uma diferença: o regime disciplinar e uniformizante existente na ditadura, que dava uma falsa aparência de estabilidade e qualidade de ensino, deu lugar a uma espécie de vazio de projeto educacional em níveis federal, estadual e municipal.

Em alguns casos (São Paulo, durante a gestão Covas), em nome da qualidade de ensino foi praticamente abolida a reprovação durante os períodos de alfabetização dos alunos, com o intuito não de testar métodos de ensino mais eficazes, mas simplesmente criar um conjunto de indicadores estatísticos que permitissem ao governo de São Paulo obter verbas do BID e de outros organismos internacionais, uma vez que a queda dos índices de reprovação escolar era condição para o financiamento. Em ambos os casos o que se constata é o constante nivelamento por baixo da educação: parece que não queremos formar cientistas, novos professores, bons técnicos, mas simplesmente dar uma educação mínima e deixar os indivíduos à sua própria sorte.

b) que Freire “aparelhou” as escolas e o ensino público com o seu método; para a Veja, sequer poderíamos falar de um método: as jornalistas que escreveram a matéria acreditam que a prática de Paulo Freire está mais para doutrinação esquerdista do que para educação – aliás, outra tremenda bobagem concluída pela reportagem.

Para mim fica claro que as moças que escreveram a reportagem simplesmente não entendem rigorosamente nada sobre aquilo que estão escrevendo. (Isso, aliás, parece estar se transformando na característica mais marcante da grande imprensa brasileira, em geral: a completa ignorância ou a preguiça em se pesquisar alguma coisa, por mínima que seja, sobre o assunto de que se está tratando, o que gera uma série de reportagens completamente “chapa-branca”, pró ou contra o governo.) Ou as moças não entendem nada de Paulo Freire, ou até entendem (o que eu duvido) e foram instruídas a escreverem exatamente aquilo que a chefia da redação quer que ela escreva (o que tenho certeza que aconteceu).

Se a equipe de reportagem fizesse uma mínima busca na internet sobre Paulo Freire, só para começar, chegaria às páginas da UNESCO sobre a importância do método freiriano para a alfabetização de adultos e jovens. Se seguisse um pouquinho mais, poderia colher as opiniões interessantes sobre a recepção do método de Paulo Freire nos Estados Unidos, realizada por pesquisadores da Universidade de Wollogong, na Austrália;ou, finalmente, chegaria na página do Instituto Paulo Freire… da University of California – Los Angeles. É curioso que os maiores entusiastas do método Paulo Freire, fora do Brasil, estejam nos Estados Unidos – país capitalista mais poderoso do mundo. Mas se a equipe da Veja tivesse chegado a estas páginas, creio que fariam uma reportagem sobre a subversão comunista nos EUA…

3) E aqui o mais preocupante: é absolutamente lícito que uma revista defenda pontos de vista conservadores, liberais, neo-liberais ou o que quer que seja, dentro dos mais absolutos princípios democráticos, e obedecendo minimamente o que se espera de uma reportagem: informação bem pesquisada, respeito à trajetória intelectual daquele que é seu oponente… No entanto, Veja, hoje, não faz nada disso: ela se transformou numa espécie de máquina de guerra contra tudo o que pareça minimamente “de esquerda” (mas o que isso significa, hoje?); sua atitude – e esse é o diagnóstico mais sério dado pela Nita Freire, aparentemente clama por democracia, mas não é rigorosamente nada democrática no que diz respeito às suas reportagens: os pré-julgamentos são uma constante, o dogmatismo com que encaram as teses de livre mercado são assustadores, e o que eles chamam de “crítica” não passam por um exame, por uma análise, mas pela desqualificação pessoal pura e simples guiada pela mais absoluta ignorância sobre aquilo que escrevem. Fizeram isso quando noticiaram o “tombamento” da capoeira, sem saber que a capoeira não pode ser tombada, mas registrada como patrimônio imaterial brasileiro – coisa que um iniciante nos estudos de história e patrimônio histórico sabem, mas não a redação da revista; fizeram isso com Paulo Freire. E vão continuar fazendo com quem quer que eles identifiquem como “esquerdista” – seja lá a acepção que a revista dê a esse termo.

Em suma, é isso a que veja está se reduzindo cada vez mais: um Comando de Caças aos Comunistas pós-comunismo.Mas aqui já ultrapassamos o limite do razoável e adentramos no território da paranóia. E temos que constatar: a paranóia vende, e vende bem, ainda mais se combinada com a ignorância  – travestida de refinamento, mas ainda ignorância.

Publicado em:  on 18 18UTC Setembro 18UTC 2008 at 1:09 am Deixe um comentário
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Resposta da Viúva de Paulo Freire à Revista Veja (I)

A partir de uma postagem do Na Prática a Teoria é Outra soube da carta que a senhora Ana Maria de Araújo Freire, viúva do célebre professor Paulo Freire, escreveu repudiando a reportagem da revista Veja, publicada em 20 de agosto de 2008.

A carta foi publicada na íntegra no blog do repórter Luis Carlos Azenha. Ela é reproduzida abaixo:

“Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE — e um dos maiores de toda a história da humanidade –, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico.  Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do “filósofo” e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou – que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu “Norte” e “Bíblia”, esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire”.

Publicado em:  on 17 17UTC Setembro 17UTC 2008 at 11:01 pm Deixe um comentário
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